Olha-qui-coisa-mais-linda!_ é a terceira vez que venho ao Rio de Janeiro. entre as horas de maior calor, decido parar por aqui e deixar um pouco do que se passa na cidade que é mesmo maravilhosa como dizem. cheguei ontem e o programa das festas para os próximos sete dias é: pequeno-almoço no hotel com a minha cara-metade, que tem de ir cedo para o escritório. Aproveitei a ocasião e ‘colei-me’ a ele, para sair de Portugal e fazer um _reset. ele não se importa nada, embora sinta que preferia passar o dia sentado ao meu lado, na sua cadeira reclinável, a surfar as ondas. o pequeno-almoço, pois. tem de ser com tudo o que tenho direito – queijo de minas, as frutas deliciosas como a papaia, o abacaxi e a manga, sumo de laranja, pão de queijo. a seguir, praia. garoto, me arranja um barraco e uma cadeira, valeu, temos de falar ‘abrasileirado’ senão olham para nós como se não falássemos a mesma língua. e assim vem o rapazito atrás de mim, até bem perto do mar, porque o calor já aperta e ainda só são dez da manhã, meu nome? Ana. eu sô o Walté, si precisá dji mais auguma coisa é só chamá. Valeu. Hum… delicioso. Ajeito as costas da cadeira e deixo-me levar pelas palavras de um clássico de Virgínia Wolf, uma primeira experiência, em ‘Mrs.Dolloway’. Oiço música, mergulho. e observo. amanhã tenho de trazer o moleskine. as praias do Rio têm aquela mística das novelas, os prédios da Av. Vieira Souto, altos e com coberturas que me prendem o imaginário, o calçadão imenso e cheio de ‘Ricardão(s)’ a exercitar o físico. o sol torra e a praia está coberta de chapéus de sol, amarelos e vermelhos, depende da praia. fico triste porque a água está muito suja, as pessoas deitam tudo para o mar, devem pensar que o mar leva, por favor, não estraguem as praias, por segundos parece-me estar numa das praias da nossa Linha e não gosto, afinal eu estou na praia do Leblon, Rio de Janeiro! São 13h30 e decido sair para comer um pastel de carne e beber um suco de fruta do conde, sem açúcar. o sol está a pique e não podemos descurar o creme a toda a hora, sob pena de fritarmos, até dói olhar para os estrangeiros vermelhões que só me apetece fazer uma intervenção e dar-lhes uma palestra sobre cancro. adoro o Rio. acho que viveria aqui por um ou dois anos, com este clima que chama para a rua a toda a hora. e os brasileiros no Brasil são simpáticos. O calor ajuda muito ao espírito e consigo não pensar nas tormentas e desfrutar. volto para a praia e procuro o meu ‘barraco’, até a tarde terminar. que bom. mais logo fazemos um power walk pelo calçadão e jantamos no Sushi Leblon. olha-qui-coisa-mais-linda.
após dois dias o tempo muda radicalmente. são-as-águas-de-março-fechando-o-verão… tento manter a calma. não pensar em coisas que me chateiem, como é o caso da chuva inconveniente. tento relaxar. os dias levam-se melhor sem pensar. oiço a chuva. cai forte, intensa. não é daquelas que molha só um bocadinho. chove desde quinta feira. ontem o sol estava apenas escondido deixando-nos a esperança de que hoje nos tocaria o rosto. nos traria momentos de puro deleite na praia, e ainda a caminhada diária no calçadão desde o Leblon até ao Arpoador. de muitas águas de côco para hidratar. o Rio não deixa de ser maravilhoso, mas com chuva pouco há para fazer. os velhos e bonitos passeios de calçada portuguesa enchem-se de ‘bueiros’ (como aqui se diz), tornando difícil qualquer passeio. podemos abrigar-nos no shopping, mas quem quer ir no shopping todo o tempo? eu não. já comprei o que tinha para comprar. as esplanadas das lanchonetes estão molhadas e desagradáveis. tudo é mais difícil para um turista no Rio quando chove, principalmente se se está só. só me resta a internet, o livro, o SPA do hotel (hum, essa é uma muito boa opção) e querer com muita força que o dia de amanhã seja melhor. e vai ser.
o céu apresenta-se nublado e com algumas perspectivas, não muitas mas com muito boa vontade. sento-me numa das muitas esplanadas dos muitos quiosques que vendem água de côco – entre outros, irrelevantes – pelo calçadão afora. mesmo à beira do muro que me separa da areia e depois da água do mar. está calmo, o mar, parece. cá fora a temperatura não é das mais desejadas, mas o mar adivinha-se agradavelmente quente. que tranquilidade, quase nos faz esquecer que correm carros, autocarros, bicicletas e pessoas mesmo atrás, no calçadão, na estrada. há pessoas a caminhar na areia como se à deriva, como se o tempo não tivesse importância, sequer passasse. e se pensarmos bem, não tem importância mesmo.
já não sei em que dia estamos, mas sei que passaram alguns dias. acordo e faço sempre a mesma coisa: puxo a cortina e olho para o céu. hoje resgataram o sol. fico feliz como uma criança. meio tímido, mas está lá, também cansado da prisão a que o devotaram desde há tantos dias, dias de férias, merecidas férias da existência em que só o prazer deve ser admitido, mais ainda na cidade maravilhosa, como só ela sabe. aparece por entre as nuvens, flocos que o impedem de cair. está aquele calor abafado, de trovoada, e dá para sentir que hoje a praia vai dar. os quiosques do côco estão abertos novamente, ai água de côco, beberia todos os dias. ah! praia no Brasil, no Rio de Janeiro, no Leblon. afinal aqui também o sol é um luxo. o mar continua aparentemente sereno e hoje vou mergulhar, cheia de vontade de ficar salgada da cabeça aos pés. mergulho. uma e duas vezes sem deixar que a corrente me assuste e encho-me de energia. subo e deito-me a secar, com o livro sempre ao lado, o único amigo numa praia quase vazia. e lá atrás a vida continua, sambando.
último dia na habitação meia-zero-meia. na cidade do Pão de Açucar, da garota de Ipanema. do passeio pela Lagoa, da baía de Guanabara, do salmão fois-grás no Sushi Leblon, do café-da-manhã sem hora na Escola do Pão. do Parque Lage, da ‘azaração’ do Zero Zero, do charuto cubano no ESCH, do Zucca, do Guimas no baixo Gávea e dos lápis da Faber-Castel para desenhar nas toalhas de papel. do Jobi e do Bracarense, viva os tugas. dos morros e das favelas, do Ritz Leblon, do BB Lanche. da água de côco, abençoada. da fruta do conde, do pão de queijo, do pastel de carne e do croissant de queijo de minas. das Havaianas e dos biquinis Salinas. dos escapulários que nos protegem em todas as frentes. do calçadão típico português e dos maravilhosos apartamentos onde se adivinham os artistas da novela das cinco. da orla de areia que vai do Leblon até Copacabana, do Walter do barraco e do Ricardão que corre na praia de sunga e corpo suado. das lanchonetes e resturantes em cada esquina, abertos para a rua como se a vida, simplesmente, ‘rolasse’. dos amigos que não conhecem distância. das gargalhadas ‘facinho, facinho’. de “enchê a láta i beijá ná boca”. poderia ser senão inesquecível? a única coisa que desapontou foi o tempo, o Rio fica a dever-me uma. E outra e tantas, porque o Rio fica cá, à minha espera como se já fosse, também, um pouco meu.
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