
_10 anos da minha vida._ Tenho uma péssima memória. Sentada no sítio do costume – passe a publicidade – à espera de cheirar a inspiração em algum canto destas paredes ou por entre as traves dos estores modernos das janelas indiscretas, e não revelo para quem, começo a escrever o tal artigo sobre a década que agora finda.
No ano 2000 estava eu em inícios de… carreira?. Trabalhava numa grande empresa americana, com executivos de fato e gravata, num edifício moderno, com secretárias e impressoras e telefones e computadores. Nessa altura nem sabia bem no que me estava meter, mas tudo parecia estar a correr como planeado, afinal, havia sido preparada desde cedo para essa grande missão da vida do comum mortal: trabalhar. Conheci o Scott McNealy em Silicon Valley, numa daquelas formações para novos recrutas, e fiquei impressionada, de tal maneira que achei que era ele quem deveria ter sido eleito Presidente dos Estados Unidos nesse ano, em lugar do George Bush, que venceu o democrata Al Gore. Começava uma era que mudaria o mundo.
Em 2001 dei o grande salto na tal da…. carreira?. A empresa tinha muitas semelhanças com a anterior, mas agora também eu era uma executiva de fato e gravata e isso dava-me alguma importância, ou pelo menos, era assim que a coisa parecia funcionar. Muitos mails, muitas reuniões e conference calls, folhas excel e uma secretária à minha escolha, hã, nada mau. Uma semana antes de começar esta nova etapa, que continuava a confirmar que eu ia no caminho certo e incontornável do mundo empresarial, as torres gémeas de Manhattan, New York, são atacadas por terroristas e caem, em chamas, deixando um rasto de incredulidade que nunca seria esquecido. E lá se foi, indefinidamente, a minha segunda oportunidade para visitar Silicon Valley, ainda que com o mesmo propósito, mas outro CEO.
Durante alguns anos continuei a… carreira? de executiva de fato e gravata na mesma empresa, a coisa estava mesmo a correr bem e agora até um carro topo de gama eu tinha. Afinal, a subida na escada corporativa estava a dar os seus frutos! Em 2002 comprei a minha primeira casa e emancipei-me, o que fez de mim, oficialmente, uma adulta independente. Comecei a perceber que tudo na vida tinha um preço, ingenuidade à parte, e em vez de fazer terapia para curar o stress-traumático da maioria dos executivos de fato e gravata, decidi trabalhar umas horas todos os sábados à noite num bar da moda como empregada de mesa, descobrindo não só uma vocação nata, como fazendo gorjetas suficientes para pagar a conta da electricidade. Agradava-me essa faceta de Mata Hari dos tempos modernos, a vida dupla, ora uma executiva de fato e gravata, ora uma ‘empregadita’ de bar sem futuro, como tantos outros executivos de fato e gravata nos tratavam.
Apaixonei-me pelo Nick Cave. Tínhamos tudo em comum, ambos éramos incompreendidos, inconsoláveis e complexos. As letras das suas músicas viviam na linha ténue que separa os opostos, que põe em causa convicções, que revoluciona a nossa mente tida como sã. Já para não falar na voz de ‘barba rija’ deste cantor australiano. Foi precisamente em 2003 que saiu um dos membros mais antigos dos ‘Bad Seed’, já com 20 anos de existência, embora não tenha ameaçado sequer a continuação do sucesso desta banda liderada pelo mais eclético cantor e compositor de todos os tempos.
2004 foi o ano em que a nossa grande maratonista Rosa Mota foi escolhida para transportar a chama olímpica nos Jogos Olímpicos de Atenas. E eu fiz 30 anos! Como presente recebi o tão aclamado bilhete de entrada na década de ouro, a década promissora, onde tudo se define, revoluciona, muda, despenteia! Eu andava despenteava, pois andava, e continuo despenteada até hoje. E começou aí a minha fase de definição indefinida de quem eu era e de quem queria ser. Follow-the-yellow-brick-road e vamos lá descobrir o prazer do caminho…
O que mais me marcou em 2005 foi a catástrofe natural que atingiu a costa sul dos Estados Unidos, o furacão Katrina. Até à data, o evento anual da empresa importante onde eu continuava a trabalhar como executiva de fato e gravata, realizava-se em New Orleans, e como tal, nunca cheguei a conhecer a cidade que tanto os meus colegas gabavam pelas inúmeras atracções duvidosas que tinha. No entanto, e para gáudio dos mesmos, passámos a ir para Viva! Las Vegas. Decidi finalmente pôr cá para fora algo que vivia no segredo dos meus pensamentos e fui tirar um curso de escrita criativa pós-fato e gravata, onde conheci um mundo completamente diferente do meu e que me seduz até hoje.
A gravata de vez em quando apertava-me, e o fato às vezes era muito pesado. Devia ser porque o passo era cada vez mais acelerado, afinal quando se começa a subir a escada, não se pode parar, sob pena de sermos ultrapassados. E eu começava a querer mais, num questionar permanente que me arrastava para outros interesses. Em 2006, no mesmo ano em que termina uma das maiores ditaduras do mundo com a execução de Saddam Hussein, eu mudo de novo com o mundo e aceito aquele que foi um dos desafios de que mais me orgulho, escrever para teatro e representar um papel na peça que um grupo de jovens universitários e a executiva de fato e gravata montaram numa ala desactivada do Hospital Júlio de Matos. Sofriamos todos de doença e assumíamos essa fatalidade mais como uma causa do que como uma consequência. Crónico.
A grande revolução dá-se em 2007 quando decido ir viver para Hong Kong, uma ilha tipo feira-popular-para-crescidos na China, antiga colónia britânica, cheia de expatriados ricos, prédios altos e com uma flora luxuriante em cada cantinho onde não há betão. Tinha 33 anos e continuava a usar o fato e a gravata, mas agora de marca internacional e olhos em bico, a tal da… carreira? continuava o seu caminho ascendente, novas culturas, nova língua, novo clima tropical com direito a 90% de humidade e um hairstyling volumoso que nunca mais terei, tão bom seja o meu cabeleireiro. A milhares de Kms de distância de home-sweet-home. O que eu não imaginava era que a maior das revoluções ocorreria em Portugal nesse ano, com a aprovação em referendo da despenalização da lei do aborto. Renova-se a esperança de que não esquecemos a liberdade que os nossos pais conquistaram no 25 de Abril. Orgulho-me de ser Portuguesa numa terra que não é a minha. Visito o Japão. Em Tóquio vou ao mesmo hotel, subo ao mesmo bar e sento-me na mesma mesa onde a (agora) diva Scarlett Johansen e o intemporal Bill Murray, se encontram num dos mais famosos filmes de Sophia Coppola, “Lost in Translation’, um retrato fiel da cidade e dos seus ‘estranhos’ habitantes.
Regresso às origens em 2008. Porque não há nada como voltar, mas para voltar é preciso ir, há ir e voltar. Voltei, com esperança na mala, que não era de cartão, eram daquelas antigas-cabe-tudo que se vendem na Polux do Rossio, e uns quantos sacos chineses para trazer toda uma outra vida que lá vivi. Tinham de caber ainda os muitos planos, desejos, vontade de tudo o que me era familiar e que nunca apreciamos o suficiente quando temos todo o tempo. Nesse ano saiu o último filme da magnífica saga StarWars, os únicos filmes de ficção científica que me agarram até hoje. Iniciámos um um projecto, uns quantos amigos e eu, para vê-los todos de seguida, pela sua ordem cronológica. Pedimos desculpa, mas por reveses da vida, não aconteceu, quem sabe um dia, com outros amigos? Houve uns com quem fiz música e até um dos meus poemas guardados-a-sete-chaves foi parar num disco, imaginem. E tantas as lições aprendidas!… Agora, qual o próximo desafio? Uma coisa é certa, a escada corporativa mostrou-se mais uma vez atraente e continuei a subida. E quanto mais subi…
Às vezes perdemos o fôlego. Começa a faltar-nos o ar, ou então começamos a ver a vida de outra forma, a olhar em volta, a reparar nas coisas em vez de vê-las apenas. Tornamo-nos mais exigentes. E mais honestos para connosco. O fato e a gravata, já gastos, obrigaram-me a parar para a revisão dos dez anos. E como diz a minha Mãe e as Mães sabem sempre tudo e tudo, a culpa é da crise, tal e qual como vem descrita no dicionário Priberam da Língua Portuguesa:
(latim crisis, -is)
s. f.
1. Mudança que sobrevém no curso de uma doença aguda.
2. Fig. Conjuntura perigosa; momento perigoso e decisivo.
3. Falta de trabalho.
4. Embaraço na marcha regular dos negócios.
5. Desacordo político que obriga o ministério a recompor-se ou a demitir-se.
s. m.
6. Bras. Cris.
crise nervosa: ataque de nervos.
E foi mesmo isso que aconteceu em 2009, um ataque de nervos internacional, europeu, galáctico e colectivo, de proporções catastróficas e maléficas do género gripe-A-mas-sem-Tamiflu que atinge as massas, cidadãos do mundo, de todas as raças e cores e credos e que marca este ano como o ano da escolha, aquela que é a mais fundamental da existência humana: rendermo-nos ou lutarmos? Eu cá vocês não sei, mas eu escolhi lutar. E para mim, este é o ano da guerra-que-dá-e-leva, do cultivo, da perseverança, da paciência – de provar, efectivamente, que a escada do sucesso, seja ela qual for, continua lá, à nossa espera. Sem número limitado de degraus para subir.
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