Arquivo 2009-2013, Sociedade

A crise financeira não foi causada pelo mercado livre (1)

Cartoon: Kal, Cartoonists and Writers Syndicate. International Herald Tribune, 27 Outubro, 1989.

Cartoon: Kal, Cartoonists and Writers Syndicate. International Herald Tribune, 27 Outubro, 1989.

A crise financeira não foi causada pela ganância dos banqueiros nem pela falta de ética da sociedade capitalista. (1ª parte)

A crise financeira provou que o capitalismo é um sistema inerentemente instável, e que os mercados livres não são de confiança. Perante a lógica do lucro sem regras, e na presença de um sistema financeiro cada vez mais sofisticado e sem escrúpulos sociais, houve uma falha massiva da ética empresarial e dos sistemas de governo das empresas.

Provou-se que a autoregulação dos mercados não funciona. O laissez-faire (capitalismo sem Estado) dá origem aos ciclos económicos. Épocas de prosperidade são seguidas de depressões terríveis. Há que regular e fiscalizar a Economia para que estas situações não voltem a acontecer.

Os dois anteriores parágrafos reunem a maior parte dos lugares-comuns muitas vezes repetidos em palanques, púlpitos, editoriais e tascas por esse mundo fora. Fazendo juz ao título da revista Newsweek de Dezembro de 2008 (“Somos todos socialistas”), muitos – da Esquerda à Direita – apressaram-se a denunciar os males do capitalismo e a pedir que o Estado faça alguma coisa.

Contudo, a sabedoria popular erra grosseiramente quando atribui aos mercados livres a causa da crise financeira, e erra tragicamente quando confia “a solução” ao poder político.

É inegável que os banqueiros fizeram investimentos desastrosos, e que por isso o sistema económico continua em sérios apuros. Em todas as empresas do sector financeiro falharam os mais avançados modelos de gestão de risco. É inconcebível explicar o sucedido na base de sucessivos erros intelectuais, uma vez que a banca de investimentos emprega os melhores. O problema, conclui-se, foi ético. Tudo aconteceu porque os banqueiros tiveram mais olhos que barriga. Foi um problema de ‘ganância’ – o combustível dos males do capitalismo.

Contudo, culpar a ‘ganância’ é revoltar-se infantilmente contra a natureza humana. Como perguntava Milton Friedman, quem não é ‘ganancioso’? O leitor não gostaria de viver melhor do que vive? O político ‘desinteressado’ não anseia por mais poder? O padre não gostaria de ter mais influência? Há algum empresário que não queira ser o melhor do mercado? E é menos verdade que todos sabemos que esta ânsia tem limites, que temos de ter bom-senso com o nosso consumo e cuidado com os nossos investimentos?

Analogamente, no mundo comercial a ‘gânancia’ também está relacionada com a gestão dos riscos. Todos os capitalistas são ambiciosos, e todos ambicionam poder investir sem restrições. E não surgem crises a toda a hora porque os mercados têm mecanismos institucionais para lidar com excessos. No limite, quem faz investimentos imprudentes vai à bancarrota. Em qualquer mercado, ficam aqueles que tiveram mais sizo, mais olho, ou mais sorte.

Consequência desta dinâmica concorrencial, os agentes de mercado desenvolveram sistemas internos para garantir que a agressividade comercial não prejudica a sustentabilidade das empresas. Estes sistemas são falíveis, e falham, mas regra geral são muito robustos, muito adaptáveis, e bastante fiáveis no controlo da ‘ganância’ desmedida.

Como se explica então que tantos bancos tenham permitido que pessoas sem quaisquer meios tivessem adquirido hipotecas que não podiam pagar? Não foi o lucro sem escrúpulos?

Antes de lançar mão de estereótipos anticapitalistas, há que perguntar como é que gente tão inteligente pode ser tão estúpida e tão sofrega. Porque é que todo o mercado estava possuído de uma euforia irracional? Qual foi a causa dessa orgia de investimento? Sem querer avançar com explicações prematuras, porque é que havia sempre crédito para quem quisesse? De onde veio? E o que fez toda uma sociedade perder a noção dos riscos que corria?

Para combater os ciclos económicos, ‘confirmar’ preconceitos pouco ajuda. Há que identificar e compreender as causas dos fenómenos em observação. E numa crise sistémica – quando sectores económicos vão abaixo por inteiro e em simultâneo – há que procurar explicações externas às empresas.

De facto, a crise financeira não foi causada pela ganância dos banqueiros, nem por falhas no governo corporativo das instituições, nem por deficiente regulamentação, nem pela alegada falta de ética da sociedade capitalista em que vivemos.

Veremos no próximo artigo que foram factores político-institucionais que levaram todos os bancos a agir contra a racionalidade económica.

Lamentavelmente, políticos, media e establishment económico estão convencidos do contrário, e propõem soluções milagrosas para salvar o capitalismo de si mesmo. Contudo, a tentativa de consertar o que não está estragado nada resolverá. Pelo contrário: não é uma opção repetir erros do passado, debilitar a Economia, e seguir alegremente para a próxima crise. Pelo caminho, acabaremos com uma sociedade menos dinâmica, menos próspera, e menos livre.

 

PS – Sobre a presente crise financeira, não há melhor livro no mercado que Meltdown: A Free-Market Look at Why the Stock Market Collapsed, the Economy Tanked, and Government Bailouts Will Make Things Worse, escrito por Thomas E. Woods Jr. , publicado na Regnery Publishing.


Outros artigos nesta série:

A crise financeira não foi causada pelo mercado livre (2).

A crise financeira não foi causada pelo mercado livre (3).


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António Costa Amaral, odeia notas biográficas, já viveu em Lisboa, Funchal, Lisboa, Barcelona, Bilbao, e finalmente Luanda, de onde escreve agora, livre do desconseguimento do acordo ortográfico. Dizem que é “do contra”. Isto quer dizer que é liberal-liberal; que aprecia arte com engenho, e engenho com arte; que tem pouca pachorra para baboseiras, incluindo para jogos de palavras e sarcasmos fáceis. Com muitas outras facetas impertinentes. Maior feito – ter escrito para a anterior encarnação da Lust, e ter sido convidado de regresso.