Arquivo 2009-2013, Sociedade

A crise financeira não foi causada pelo mercado livre (2)

A crise financeira e o mercado livre 2

Cartoon: Kal, Cartoonists and Writers Syndicate. Internationa Herald Tribune, 12 Novembro, 2008.

O método dos “Cinco Porquês” e as causas da crise financeira.

O império Toyota foi fundado por Sakichi Toyoda, que era um inventor com talento para os negócios. Sakichi percebia que era um esforço fútil corrigir as consequências de defeitos na suas máquinas – porque essas “soluções” – elas próprias defeituosas – escondiam causas que poderiam originar problemas ainda mais graves.

Era imperativo atacar as causas dos problemas identificados – mas primeiro era preciso descobri-las. Sakichi desenvolveu o método dos “Cinco Porquês”, que consistia em perguntar “porquê” ao problema, e obtida uma primeira explicação, continuar a perguntar “porquê” – até chegar à chegar à raíz causal do problema. Cinco iterações deviam chegar.

Utilizemos este método com a crise financeira.

Porque é que aconteceu? Porque o mercado imobiliário colapsou nos Estados Unidos. Porquê? Por causa das hipotecas sub-prime. Porquê? Porque os banqueiros foram gananciosos. Porquê? Porque não estavam suficientemente regulados. Porquê? Por causa da religião do capitalismo laissez-faire. Solução: o Estado deve resolver.

No auge da crise, esta era a opinião mediática dominante.

Este exemplo serve para exemplicar a mais séria limitação do método. As pessoas têm tendência a ficar satisfeitas com explicações superficiais, confortáveis, em domínios que entendem – e que aprovam. A preguiça intelectual faz parte da natureza humana. Para ir ao fundo dos problemas, é necessário disciplina de pensamento, humildade intelectual, fortaleza moral, ou (quando outros já fizeram o trabalho) informação e bom-senso – e tudo isto falta à maior parte dos fazedores de opinião.

No último artigo, referi que todos os agentes económicos tinham falhado na avaliação do risco do mercado imobiliário, e ficou por responder “porquê”.

Na sequência da bolha das dot-com em 2000 e dos ataques de 11 de Setembro de 2001, os investidores norte-americanos procuraram aplicar o seu capital em sectores seguros. O sector do imobiliário satisfazia os requisitos: os preços das casas não tinham deixado de crescer, relativamente imperturbados, durante a década precedente.

Por outro lado, o poder político estava interessado em promover a aquisição de casa própria, era o “sonho americano”. Congresso e administração – de ambos os partidos – lançaram políticas agressivas de subsídios, isenções fiscais, “direito à habitação”. Políticas como a Community Reinvestment Act, protecção contra a discriminação, ou agências como a Fannie Mae e Freddy Mac existiam para financiar as hipotecas menos rentáveis, ou seja, aquelas assumidas por pessoas a quem à partida seria rejeitado crédito.

Estes factores explicam porque é que a bolha aconteceu no sector imobiliário. Não explicam porque é que a bolha aconteceu. A construção de habitação é uma actividade económica muito antiga. Por todo o mundo o imobiliário é um mercado estável, e por todo o mundo há políticas estatais de apoio à habitação. Não há bolhas por todo o mundo e a toda a hora porquê?

Todos os agentes económicos concorrem por capitais limitados. Para que um sector esteja em expansão acima da média, outros têm de estar em retracção, consequência de não conseguirem atrair capital suficiente. A seu tempo, mesmo com políticas fiscais generosas, os sectores em expansão ficam mais caros, os outros ficam de novo atraentes para os investidores. Estabelece-se um equilíbrio dinâmico.

Acontece que enquanto toda a Economia crescia a ritmo “normal”, o sector imobiliário crescia descontroladamente. Era obviamente uma bolha. Ora, para haver uma bolha descompensada é preciso haver dinheiro continuamente injectado na Economia.

Nos Estados Unidos, a instituição que tem essa função é a Reserva Federal (Federal Reserve ou “Fed”). Aí encontraremos a causa da crise financeira.

No próximo artigo desenvolverei esta conclusão.


Outros artigos nesta série:

A crise financeira não foi causada pelo mercado livre (1).

A crise financeira não foi causada pelo mercado livre (3).


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António Costa Amaral, odeia notas biográficas, já viveu em Lisboa, Funchal, Lisboa, Barcelona, Bilbao, e finalmente Luanda, de onde escreve agora, livre do desconseguimento do acordo ortográfico. Dizem que é “do contra”. Isto quer dizer que é liberal-liberal; que aprecia arte com engenho, e engenho com arte; que tem pouca pachorra para baboseiras, incluindo para jogos de palavras e sarcasmos fáceis. Com muitas outras facetas impertinentes. Maior feito – ter escrito para a anterior encarnação da Lust, e ter sido convidado de regresso.