
Cartoon: Nate Beeler (The Washington Examiner)
A conclusão da série de artigos sobre as causas da crise financeira actual.
A reacção pavloviana dos media e status quo filosófico/político à crise financeira foi declarar que o “capitalismo” tinha falhado – sendo “capitalismo”, no entender daqueles agentes, um “sistema” vilão, sinistro e perverso, incorporando tudo o que há de mal na sociedade.
Nada contra que digam que “isto” falhou. Mas choca tanto preconceito antiliberal e tanta incompetência analítica.
Nos dois últimos artigos, argumentou-se que era absurdo culpar a “ganância” dos agentes económicos, ou sequer factores instrumentais da crise. Explicar como ocorreu um fenómeno não é o mesmo que explicar porque é que o fenómeno ocorreu.
Em 2005, Ben Bernanke, então o provável sucessor de Greenspan como governador da Federal Reserve (o “Fed”), dizia que o mercado imobiliário era um mercado muito local e que não havia temores de uma bolha a nível nacional. Tudo não passava de “espuma” dos mercados. Bernanke estava errado.
O imobiliário tinha sido até então um mercado muito dependente das economias locais. A Economia crescia moderadamente, a demografia também, os fundamentals pareciam estar bem. Os modelos financeiros dos bancos reflectiam essa realidade. Diversificavam os riscos considerando que nem todos os mercados locais iam colapsar simultaneamente. Tal nunca tinha acontecido. Business as usual.
As “explicações” anticapitalistas para a crise culpam complicados instrumentos financeiros pelo facto da crise ter atingido proporções nacionais nos Estados Unidos. É uma teoria absurda, porque esses instrumentos servem para diversificar riscos, e nada melhor que uma indústria iminentemente local – construção de residências de subúrbios – para o fazer.
A crise aconteceu não porque houve especulação imobiliária, porque tal actividade sempre existiu desde o início dos tempos. A crise aconteceu porque a especulação imobiliária passou a funcionar em sintonia em todo o território dos Estados Unidos – algo que não pode ser causado pelos instrumentos financeiros derivados.
A explicação encontra-se no crédito fácil. Truísmo: havia demasiado dinheiro a ser canalizado para o imobiliário.
Contudo, em qualquer economia, é limitado o capital pelo qual os diversos sectores têm de competir. Algum outro sector da economia devia estar com sérias dificuldades de financiamento, obrigado a pedir capital emprestado a preços mais altos. Tal não aconteceu.
Mais, mesmo para o imobiliário, não havia capital ilimitado. Em situações normais, quando investidores procuram mais crédito do que o dinheiro que os bancos têm para emprestar, as taxas de juro sobem. O capital fica mais caro, e fica mais apertada a selecção de quem quer financiamento – no caso do sector imobiliário, construtores e compradores. Tal não aconteceu.
Quando alguém que não pode apresentar garantias pede um empréstimo, os bancos exigem-lhe o couro e o cabelo. Na bolha do imobiliário, foi o contrário. Havia crédito para todos os que pedissem. Porquê?
Relembrando o último artigo, contingências locais e políticas não explicam o fenómeno – outras geografias, outros interesses seriam afectados.
Havia crédito para todos porque o Fed manteve as taxas de referência artificialmente baixas. Injectou no sistema bancário demasiado dinheiro barato, durante demasiado tempo. O Fed não permitiu que o mercado assinalasse, com aumento das taxas de juro, que havia demasiado crédito a ser distribuído.
A liquidez injectada pelo Fed encontrou o seu caminho para o sector imobiliário – como teria ido parar a um sector económico diferente, fosse outro o contexto político ou regulamentar. Todo o país começou a investir exuberantemente.
Os construtores e promotores não deixavam de meter mais casas no mercado, os bancos baixaram as exigências para conceder crédito, as pessoas assumiam hipotecas que não conseguiriam pagar.
Certo dia os preços do imobiliário fraquejaram, algumas pessoas deixaram de pagar a sua hipoteca, porque o que iam receber se vendessem a casa ao fim de uns anos não compensava o dinheiro que ainda tinham de investir. Aumentou o número de casas no mercado, os preços baixaram, o sistema desmoronou-se. Em Setembro de 2008 diversos bancos declaravam que estavam em sérios apuros, e as bolsas caíram a pique.
Mas não é o Fed uma instituição de mercado livre, logo um pilar do “capitalismo”? Absolutamente não.
O Fed fixa o preço do dinheiro, da mesma maneira que em economias planeadas um qualquer comité de tecnocratas fixa o preço de todos os bens essenciais. O Fed pratica socialismo monetário.
E não só, o Fed é o suposto garante do sistema de reserva fraccional, que permite aos bancos emprestar mais dinheiro do que aquele que têm em reserva. É um sistema fraudulento, que torna o sistema bancário tecnicamente insolvente. Sem este sistema, não existiriam bancos cuja falência destruiria o sistema – não existiria risco sistémico.
Nesta crise, como em tantas, os mercados falharam onde estavam mais fragilizados – mas não falharam porque são imperfeitos. Os mercados só falharam na medida em que funcionam sobre um sistema institucional que nada tem de capitalista.
Outros artigos nesta série:
A crise financeira não foi causada pelo mercado livre (1).
A crise financeira não foi causada pelo mercado livre (2).
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