
Um dos melhores álbuns de 2009 – a escutar sem moderação.
Together Through Life marca o regresso de Bob Dylan aos discos de originais, quase três anos depois do aclamado Modern Times (2006). A génese de Together Through Life, segundo Dylan, foi a composição do tema “Life Is Hard”, a pedido do cineasta francês Olivier Dahan para o filme My Own Love Song, tendo a partir daí surgido a direcção para a composição dos restantes temas.
O álbum foi gravado em finais de 2008, com Dylan – tal como nos seus dois álbuns anteriores – a assumir funções de produtor, sob o pseudónimo Jack Frost. Em seu redor encontramos os músicos que o acompanham habitualmente em digressão, entre os quais se destaca o venerável baixista Tony Garnier (Tom Waits, Loudon Wainwright III, Marc Ribot), seu conterrâneo e director musical de facto desde 1989. O disco pauta-se por um folk-rock vigoroso e orgânico, com uma dinâmica quase live, mas mantendo uma coesão digna de nota, testemunho do calibre e do entrosamento entre os músicos presentes, aguçados por anos de estrada. A sonoridade é quente e densa, com um carácter vintage, baseada num trabalho de gravação que, segundo o próprio Dylan, foi inspirado nos sons dos lendários estúdios Chess e Sun nas décadas de 50 e 60.
À banda de Dylan juntam-se também dois convidados de peso: David Hidalgo, multi-instrumentista e compositor, mais conhecido como membro fundador de Los Lobos, e Mike Campbell, guitarrista e também membro fundador de Tom Petty & The Heartbreakers. Campbell preenche de forma sóbria e melódica os temas à guitarra e bandolim, enquanto o acordeão de Hidalgo, um dos pontos fortes do álbum, junta uma cor e textura que puxam a sonoridade atrás no tempo e sempre mais para Sul.
É nesta atmosfera que se desfia uma forte influência blues, visível desde a faixa de abertura, o soberbo “Beyond Here Lies Nothing” (que não soaria deslocado num dos álbuns mais recentes de Tom Waits). Os blues sentem-se também no shuffle pronunciado de “Jolene”, em “My Wife’s Home Town” (deliciosa reinvenção do clássico de Willie Dixon “I Just Want To Make Love To You”) e no contagiante “It’s All Good”. Para além desta esfera blues, o álbum divide-se entre alguns números mais ritmados como “Shake Shake Mama” e uma série de baladas com o cunho inimitável de Dylan, onde ganham inegável relevo as participações de Campbell e Hidalgo. A simplicidade dos arranjos é sem dúvida intencional na sonoridade espontânea que Dylan procurou aqui cultivar, mas apesar da musicalidade, fica por vezes a sensação que o potencial da presença de Hidalgo poderia ter sido explorado com mais profundidade em certos temas.
Quanto a Dylan, a voz não disfarça o peso dos seus 67 anos, mas é algo que o cantor assume sem complexos e não procura disfarçar, e quaisquer limitações são esquecidas pela intensidade da entrega e pela exploração das palavras por parte de quem as domina de forma inigualável, como se sente em temas como “Life Is Hard” ou “Forgetful Heart”. Na parte lírica, Dylan uniu esforços com Robert Hunter, antigo letrista de Grateful Dead, a um nível de colaboração só antes visto com Jacques Levy em Desire (1976). A colaboração com Hunter estende-se a 9 dos 10 temas do álbum, com excelentes resultados. Ao longo do álbum, encontramos ocasionalmente alguma da visão ácida de Dylan perante a realidade, como em “It’s All Good”: “Big politician telling lies / Restaurant kitchen all full of flies / Don’t make a bit of difference / don’t see why it should / But it’s alright / cause it’s all good / It’s all good / It’s all good”. Mas é sobretudo uma visão introspectiva e retrospectiva que Dylan partilha, incidindo frequentemente em reflexões sobre amor, separação, incerteza, perda e distância. Temas como “This Dream Of You” ou “I Feel A Change Comin’ On” revelam-se intimistas q.b. e com o nível a que Dylan já nos habituou, mas sem o carácter sombrio que encontramos por vezes em álbuns anteriores.
Em resumo, Together Through Life é mais uma adição a uma série de excelentes álbuns que Dylan tem vindo a lançar desde o magistral Time Out Of Mind (1997), que relançou uma carreira que muitos consideravam já em fase terminal. Um álbum intenso, vivo e carregado de tradição mas despretensioso, em que brilham a criatividade instintiva de Dylan e a musicalidade de todos os intervenientes.
Sem dúvida e por mérito próprio um dos melhores álbuns de 2009 – a escutar sem moderação.
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