António Santa Clara entrevista DD Peartree. ###Curvas na Estrada###
DD Peartree é o alter-ego e projecto a solo de Dieter Pereira, músico bem conhecido do panorama regional madeirense. Com uma sonoridade folk-rock contagiante, este projecto promissor tem vindo a ganhar admiradores e visibilidade através de actuações ao vivo e tempo de antena conquistado nas rádios regionais por temas como “Twists and Turns” e “Drifting Drifting”.
Para o futuro próximo, as baterias estão apontadas para a gravação do álbum de estreia, com produção de Paulo Miranda (Legendary Tiger Man, Old Jerusalem).
A Lust falou com o Dieter para tentar conhecer um pouco melhor este projecto.
Fala-nos um bocado de DD Peartree. Como surge este projecto?
Apareço como DD Peartree em 2007, fruto de circunstâncias e realidades da minha vida na altura. Era uma época muito interessante mas também frustrante, e sentia uma grande necessidade de exteriorizar temas, letras, ideias e sentimentos que vinha acumulando e desenvolvendo fora dos projectos em que estava inserido. Era também uma coisa que vinha adiando há imenso tempo: trabalhar música minha.
Que recepção tens tido, por parte do público e não só?
A recepção tem sido boa. Inicialmente fiquei muito surpreendido, entretanto já me apercebi e acostumei à ideia de que com o que componho e escrevo posso comunicar para além de simples exteriorização pessoal de ideia ou sentimento.
Fascina-me o simples facto de haver pessoas que tiram algo da minha música, que partilhamos uma melancolia ou situação e que se tracem paralelos entre as nossas vidas.
Sabes aquele sentimento de escutar um tema ou uma letra e personalizá-la completamente? Que parece que fala de nós ou connosco? Tenho tido comentários do género sobre a minha música e isso é do melhor, é fantástico.
Tens já uma experiência razoável como músico, sendo no entanto DD Peartree o teu primeiro projecto a solo. Como avalias as diferenças entre o estar integrado num grupo e o trabalhar a solo?
A diferença mais óbvia é a tomada de decisão na composição.
Qualquer trabalho colaborativo acaba por envolver cedências de pontos de vista musicais, pequenas ou grandes, e apesar de achar que geralmente o produto final ganha com um input variado, também o contrário pode ser verdade.
Adoro fazer parte de uma banda, mas precisava de um projecto mais orientado e centrado em mim. Sempre com espaço para colaboração e partilha, claro, mas em que posso moldar as coisas, ter uma liberdade de expressão total e de experimentação também.
Como te defines em termos de sonoridade? Tens influências que consideres incontornáveis?
Sou um folk-rocker ou coisa do género… Adoro a bela simplicidade de instrumentos acústicos e clássicos, mas não dispenso ritmos fortes e directos.
Incontornável só mesmo honestidade na música, se bem que é um assunto discutível. Há artistas que acho genuínos porque o que transmitem fazem-no de alma e coração e, independentemente do género em que se inserem, acredito que isso vem sempre ao de cima.
Com isso em mente, tenho muitas referências, umas mais óbvias que outras. Vem-me à cabeça Neil Young, Mike Scott e os Waterboys, Townes Van Zandt, Songdog, Jeff Buckley, Van Morrison, enfim, muitos outros.
Em termos de som e estética, este projecto lembra um bocado a imagem dos cantores-compositores dos anos 60 e 70, algo que é cada vez mais raro, numa altura em que outros géneros têm mais proeminência junto do público. Consideras-te uma “espécie em extinção” enquanto músico?
Sinto-me por vezes desenquadrado, mas é uma insegurança que consigo remeter à irrelevância, porque toco o que toco e da maneira que toco por mim próprio.
Não procuro aproximar-me de géneros com mais procura ou encaixar em nichos de mercado. Simplesmente faço o que faço e como quero. Se parecer pouco ambicioso é porque de certa forma o é.
Acho muitos tipos de sucesso muito relativos e, pessoalmente, já considero um grande sucesso sempre que consigo transpor para música aquilo que sinto.
A boa música nunca morre, ouço artistas folk em 2009 que nos anos 60 já eram considerados espécies em extinção.
Que te influencia na composição de músicas? Procuras reflectir-te no que escreves ou preferes uma certa distância?
A composição dos temas acontece de várias formas, ora mais espontânea, ora mais demorada, mas tentando sempre respeitar o meu ritmo natural. Tento não forçar a produção, condicioná-la por pressas ou outras necessidades.
Claro que há temas que têm parto fácil, outros que gestam meses. Há também músicas sem letra, e letras sem música, coisas que são esquecidas e depois retomadas.
As temáticas dependem muito do meu estado emocional, mas são sempre muito pessoais e quase sempre directamente relacionadas com algo que está a acontecer na minha vida. Mas há também temas mais ficcionais, situações imaginadas, espécies de role-playing.
Agora que penso nisso, esses temas talvez sejam mais fáceis de concluir pois não há uma ligação emocional tão acentuada.
Sem dúvida que utilizas a Internet para promover o teu trabalho. Enquanto músico, como analisas a relação entre Internet, o trabalho dos músicos e a indústria musical?
A Internet veio alterar o formato normal de comércio musical, oferece possibilidades incríveis, mas também uma banalização de algum carácter e de alguns dos valores tradicionais do que era fazer música.
Fico repartido, mas a realidade é que a evolução faz-se de “revoluções” e a internet é uma realidade contemporânea completamente incontornável. Respeito-a e uso-a na promoção da minha música, tem resultado e [tem-]me surpreendido pela acessibilidade e globalização relativa que me permitiu.
Se gosto de saber que está alguém do outro lado do Mundo a escutar um tema meu com um simples click? Claro! Tem magia!
A indústria, tal como os próprios músicos, tem-se adaptado a esta nova realidade e já percebeu onde e como pode beneficiar dela.
Estás neste momento baseado na Madeira. Enquanto músico, que vantagens e desvantagens encontras?
A Madeira inspira-me, sem dúvida, mas está longe de ser o local ideal para desenvolver e promover qualquer projecto musical.
Mas consciente disso tenho tentado trabalhar de forma objectiva com as rádios locais e aproveitado as oportunidades para actuar que considero mais importantes.
No geral, tem sido uma base relativamente boa para esta fase inicial do projecto, um sítio que conheço e, sendo um meio musical onde estou inserido há alguns anos, permite-me uma facilidade de exposição e muitos contactos relevantes para andar com as coisas para a frente.
Há também, claro, mais apoio de amigos e família, o que emocionalmente ajuda muito.
Como avalias o panorama actual da região em termos musicais?
Digo sempre que a Madeira tem o panorama possível.
Oficialmente apoia-se o ensino e promoção da música clássica e do jazz, além dos importantes apoios à música tradicional. Quem não está inserido nessas áreas faz o que pode com o que tem.
Há um underground ligado ao metal e rock mais pesado que marca alguma presença, e muito investimento privado em eventos associados à música de dança porque obviamente têm retorno financeiro.
Sempre faltaram sítios de música ao vivo na noite madeirense, isso só mudará quando houver maior interesse do público em geral em que existam, é muito simples.
De resto não me parece viável haver uma “cena” musical saudável e diversa numa terra tão pequena, há que ultrapassar essa frustração, é utópico. Dito isso, faz-se mais nos últimos anos do que se fazia, há mais iniciativa.
Na tua opinião, deveriam existir mais apoios aos artistas regionais?
Acho que sim, especialmente porque há apoios bastante consideráveis e visíveis noutras áreas de qualidade e importância muito duvidosas. A Madeira peca sempre por “perder” a maioria dos valores que tem tanto na música como em outras áreas artísticas.
Mas política não é comigo, faço por não pensar em apoios oficiais, nunca os tive e consegui trabalhar e desenvolver projectos com outras soluções quer na Madeira como fora dela. Agora, algumas limitações que existem poderiam facilmente ser ultrapassadas olhando para a cultura na RAM com outros olhos.
A tua página do MySpace refere planos para a gravação de um álbum. Queres falar-nos sobre isso?
Começo em Setembro as gravações para um álbum. É um plano que venho trabalhando há cerca de um ano e que finalmente vou poder pôr em prática.
A primeira fase será de gravação cá na Madeira no estúdio Paulo Ferraz, com a produção do Paulo Miranda da AMP studio de Viana do Castelo. Tenho imensa admiração pelo trabalho do Paulo Miranda e era uma vontade forte tê-lo na produção de um trabalho meu.
As fases seguintes do processo passarão por gravações complementares no AMP studio, após as quais tomaremos decisões sobre a mistura e masterização do trabalho.
Estou a apontar ter o álbum pronto no Verão de 2010. Será um misto de regravações de alguns dos temas das minhas demos que têm tido melhor aceitação e temas novos. Sinto que será um álbum variado, estou louco para começar a trabalhar!
Que ambicionas para o futuro de DD Peartree?
O futuro passará por continuar a fazer música, tem sido a minha vida há mais de 10 anos e não me vejo a viver doutra forma.
Espero que o álbum possa ter boa aceitação, entretanto já há alguns planos para um videoclip de promoção.
Além disso, tenho alguns projectos para DD Peartree para onde canalizar as energias que sobram, nomeadamente numa banda sonora que comecei já a escrever, além das participações com os Bad Sign Blues Band que voltam aos espectáculos em breve.
A ambição será sempre conseguir fazer aquilo que desejo com a minha música, continuar a acreditar no que faço e ultrapassar as limitações que vão me condicionando. Estou motivado e com uma atitude muito positiva e isso é o mais importante!
Para terminar, queres deixar alguma mensagem?
Agradecer a atenção e a oportunidade de conversarmos, e a todos um abraço e votos de boa música.

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