
Depois dos Mano Negra e das suas viagens pelo mundo, Manu Chao regressou em 98 com Clandestino. Audição obrigatória para quem aprecia experiências que se desvendam e seduzem prolongadamente. Nascido em França, filho de pais espanhóis, Manu Chao celebrizou-se como fundador e vocalista de Mano Negra. O grupo emergiu dos subúrbios parisienses em finais dos anos 80 com uma mistura tão
inesperada quanto explosiva de rockabilly, rap, ska, reggae, salsa, raï, flamenco e outros, que servia de base a uma ideologia punk com uma forte componente de crítica social.
O desgaste de digressões constantes e toda a dinâmica envolvida em gerir um colectivo com oito membros acabaram por colocar um ponto final na meteórica carreira do grupo em meados da década de 90, deixando atrás de si uma legião de fãs.
Chao passou os anos seguintes em viagens constantes, percorrendo locais como América Central, Brasil e África, sem nunca largar a guitarra e o gravador de quatro pistas. Estes foram anos de descoberta e exploração, mas também de introspecção para Chao, influenciando directamente o processo criativo e o conteúdo daquele que se haveria de tornar o seu primeiro registo discográfico enquanto artista a solo.
Clandestino surge em 1998, editado pela Virgin. É um disco que marca desde o início a diferença em relação ao passado – leia-se, ao som musculado de Mano Negra.
Após anos passados ao leme de um colectivo de dimensão assinalável, Chao parte de uma premissa base bastante simples (voz e guitarra acústica) para em torno desta desenvolver a roupagem que articula o seu imaginário musical. Esta abordagem é evidente desde o tema epónimo que abre o álbum, com Chao em ritmo de artista de rua, descontraído mas sempre senhor de uma musicalidade contagiante. O carácter street music é aliás um dos
traços mais distintos de Clandestino, a que não será alheia toda a experiência de Chao nas suas viagens através de três continentes distintos, alimentando em grande medida e servindo de fio condutor ao álbum, dando-lhe o tom e a atmosfera nómada onde reside
muito do seu fascínio. Chao move-se entre idiomas com uma facilidade desconcertante, entre espanhol, inglês, francês e até mesmo um delicioso português de sotaque brasileiro em “Minha Galera”. Fascina também a textura que Chao consegue construir, rodeando o binómio voz / guitarra de pequenas percussões, metais, efeitos sonoros e mesmo samples de emissões radiofónicas e televisivas. Este uso de samples, semelhante ao que já havia
explorado com Mano Negra em Casa Babylon, é um dos trunfos de Clandestino, surgindo quer como complemento ou transição entre diferentes faixas, com um efeito de continuidade, quase cinemático, a fazer lembrar ao ouvinte um qualquer auto-rádio sintonizado ao acaso numa estrada sul-americana.
Clandestino é também um álbum que pode ser dividido em duas vertentes, reactiva e introspectiva. A primeira é naturalmente uma de intervenção social, de denúncia da injustiça, da repressão e da miséria que desde sempre acompanhou a obra de Chao.
“Clandestino” foca o drama da imigração ilegal (que Chao terá conhecido bem, tanto nas banlieues parisienses como na Espanha que adoptou definitivamente nos anos 90), enquanto “Por El Suelo” é um retrato pungente do interminável ciclo de opressão e revolta
que sufoca a América Latina, acompanhado pela voz inquietante do famoso revolucionário mexicano subcomandante Marcos. A vertente introspectiva é uma de reflexão sobre amores distantes e relações naufragadas, sobre cidades deixadas para trás e um movimento
constante (focado com uma sinceridade desarmante em “Desparecido”), uma wanderlust que para muitos é o elemento mais fascinante da personagem Chao e da sua obra. E é essa introspecção que brilha em canções como “Malegria”, “La Vie a 2” ou o sublime
“Despedida”, em tons agridoces que a voz ligeiramente anasalada de Chao carrega na perfeição. Pelo meio, e apesar das distâncias, há ainda espaço para um piscar de olho a Mano Negra com “Bongo Bong”, versão surpreendente de “King Of Bongo”, e os contagiantes “Luna Y Sol” e “Welcome To Tijuana”, onde a tapeçaria musical de Chao se apresenta em toda a sua força.
Em suma, um disco imperdível, não apenas para fãs de Mano Negra ou apreciadores de rock latino e reggae em geral, mas para todos aqueles dispostos a apreciar um disco que se desvenda e seduz prolongadamente.
VIRGIN FRANCE / 1998
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