Arquivo 2009-2013, Artes

João Aguardela ao bem vivo no CCB

Inesquecivelmente humana esta noite. >Puta de vida, merda de vida. Todo o santo dia a trabalhar, EI!! Puta de vida, merda de vida. E não me deixam parar, EI!!

Foi com gritos de revolta como estes que conheci, nos idos anos oitenta, a voz de _João Aguardela_: autêntica e forte, única e melodiosa, ritmada e influente, fazia ressonância no meu cérebro e nas minhas cordas vocais quando era eu apenas um jovem rebelde em projecto.

Já gritava. Já berrava com o João Aguardela que ouvia na rádio. Já me sentia fazendo parte dos _sitiados_ portugueses que lutam por aquilo em que acreditam. Já ecoava em mim essa revolta transformada em energia positiva, em arte e beleza, em força e convicção, quando na verdade ainda nem sonhava o que era todo o santo dia a trabalhar. E ainda nem sabia que os santos dos dias de labor e suor se enfileiram (malditos!!), como indianos à porta da nossa vida com espírito de cobrador (para mais, com lata de vir sem fraque!).

Sitiado era. Sitiado continuo a ser. E João Aguardela viverá para sempre em mim, como forma de ser, como grito de Ipiranga, como revolta benfazeja, como dor de amor nunca curado, como crença inabalável e independente, autêntica, hirta como as árvores que morrem de pé.

Dizia um dia destes que se pudesse trocar, morreria em vez de João Aguardela. Tal como, sereno, entraria no avião onde colocaram a bomba que vitimou Sá Carneiro, se o pudesse substituir nessa insidiosa morte.
João Aguardela é um ícone português. E, aparentemente, muitas pessoas comungam desta minha opinião: os amigos, muitos, a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), vasta, a RTP, diaspórica, os grupos musicais que fundou, vários, e o público que nos concertos agitava as vozes juntando a sua energia à dança e à rebeldia inquebrantável do João Aguardela.

Foi no passado dia 4 de Novembro que no CCB teve lugar, no Grande Auditório, a festa da música Megafone5, que homenageia a música tradicional portuguesa e a existência de João Aguardela, um trabalhador artista que laborou tanto, suou tanto, que acabou por merecer um lugar muito especial: chegou ao lugar dos que têm direito a uma festa de homenagem. Por mérito próprio e por uma coisa ainda mais importante (que só vim a perceber no dia do concerto): por ser amigo do seu amigo. Esse respeito e lealdade a tantos quantos o rodeavam e estimavam guindou-o ao Olimpo dos reconhecidos.

Depois de morto, tal como António Variações ou Carlos Paião, viverá muito mais!

Megafone5, projecto seu que teve quatro partes gravadas em faixas de som, tem nesta sua quinta parte – póstuma –, um site (que reúne toda a obra de João Aguardela, incluindo obviamente os seus grupos: Sitiados, Megafone, Linha da Frente e A Naifa); um prémio anual de distinção da nova música tradicional portuguesa e um grande concerto de homenagem.

Este concerto viveu das exuberâncias identitárias de cada grupo que nele participou, dando um cunho autêntico aos seus trabalhos, residindo a sua matriz na livre interpretação de uma raiz única: a música tradicional portuguesa.

Depois de brindarem o público com actuações ambulantes à entrada do CCB, os actores e figurantes do Artelier, montados em sigway’s enfaixadas de branco, desempenharam o seu papel com uma performance de roupas também brancas, muito som Aguardela e um móvel triciclo com muitas e berrantes colunas levando um gigantesco coração de metal iluminado a passear pelas ruas.

Guindando esse coração ao alto no palco do Grande Auditório, deixaram flores às senhoras e lugar aos Gaiteiros de Lisboa, já sem José Salgueiro (faz falta), mas com um substituto à altura (José Martins, tecnicamente perfeito, mas ainda algo desenquadrado do respirar colectivo da banda). Estiveram muito bem, mas algo abaixo do que conseguem quando actuam sozinhos e com um alinhamento que dá asas ao seu melhor desempenho e preparação. Ver uma actuação dos Gaiteiros é algo absolutamente imperdível, único e excitante.

Os Oquestrada surgiram em palco desenvoltos (os músicos perfeitos, a vocalista exuberante – muito forte na voz, impulsiva, ingénua e desleixada nas intervenções entre músicas, buscando infelizmente um protagonismo que não deve ter), e nem alguns problemas técnicos conseguiram manchar a sua actuação. Estas pequenas falhas levaram a própria precipitada e “mais papista” vocalista a interromper um inesperado convidado seu: um velho fadista lisboeta representando o fado mais tradicional e bairrista (e até um pouco pimba) de Lisboa.

As estrelas da noite (não apenas pela qualidade dos artistas – traço comum a todos os projectos) foram o simples dueto de guitarras Dead Combo! Fantástico! Diferente! Tão Português! Tão Perfeito! Encheram a sala com o som produzido e surpreenderam com uma imensamente feliz versão de um assobio de Vasco Santana no filme Pátio das Cantigas. Esta fenomenal peça foi tocada com sentimento ímpar e meritória distinção. Na obscuridade de um chapéu alto se trabalha uma timidez com escape perfeito na arte. Sublime actuação, também teatral, aproveitando todas as tábuas. A mais pequena formação foi de facto a que melhor preencheu o espaço do Grande Auditório. A rever, obrigatoriamente, vezes sem conta.

A finalizar, tivemos a presença d’A Naifa, último projecto de João Aguardela, grupo que não tocava ao vivo desde 2008. João Aguardela foi substituído no baixo por Sandra Baptista, companheira de tantos anos e de tanta vida, visivelmente emocionada. Também convidado a participar foi Samuel Palitos, na bateria, que acompanhou o malogrado músico em todos os seus projectos musicais.

Emocionados e particularmente inspirados nos belos temas que tocaram (bela voz, bela guitarra portuguesa, belo baixo, bela bateria), levaram o público em crescendo a uma tremenda ovação a João Aguardela (quando uma foto gigante sua foi projectada no palco) e à revelação, para muitos estrondosa, de que as letras dos temas de A Naifa eram do próprio Aguardela.

Publicamente atribuídas a uma tal de Maria Rodrigues Teixeira, eram afinal do próprio, que escondeu este facto aos restantes membros da banda – o nome era afinal uma secreta e sentida homenagem à sua avó paterna. Encerrou-se a festa com o discurso improvisado e emocionado do seu pai que agradeceu tudo o que se passou naquela noite e que muito vincadas ainda tinha as marcas do sofrimento que só um pai sente quando vê ir à sua frente o inesperado: a morte de um filho antes da sua própria.

Inesquecivelmente humana esta noite. À beira das lágrimas, despedimo-nos de João Aguardela e da Festa.

João onde quer que estejas, um forte abraço e duas certezas inspiradas nas letras das tuas músicas: nunca outro parvo tomará o teu lugar e… na tua noite fica o teu sonho.

>Ela sorriu e ele foi atrás. Ela despiu-o e ela o satisfaz. Aqui ao luar, ao pé de ti, ao pé do mar, só o sonho fica, só ele pode ficar. Só o sonho fica, só ele pode ficar…

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