Almoços Grátis, Arquivo 2009-2013, Sociedade

O que Adam Smith se esqueceu de ensinar

Adam Smith on high heels

Adam Smith criou uma das ideias mais célebres da ciência económica, que mais tarde originou o nascimento do Capitalismo e da Ideologia Neoliberal. O brilhante economista escocês chamou a essa ideia “Mão Invisível” e através da sua criação removeu da mente das pessoas o medo dos mercados livres, levando-as a acreditar que a melhor forma de regulação é a auto-regulação.

De acordo com a sua teoria, hoje defendida por grande parte dos economistas e seguida pela maioria dos países ocidentais, a concorrência sem restrições produz sempre o melhor possível, para todos. Sempre o melhor possível? Bom… sejamos justos para com o autor de A Riqueza das Nações. A verdade é que o que ele disse foi que “o prosseguimento do interesse pessoal sem restrições promove frequentemente o da sociedade com maior eficácia do que quando se pretende de facto promovê-lo”.
Mas será que é mesmo assim? Será a relação entre interesse individual e colectivo tão linear, que basta criarmos condições ou incentivarmos a procura do interesse pessoal para simultaneamente promovermos o interesse colectivo, beneficiando a sociedade como um todo? Charles Darwin não parece estar de acordo.

Darwin foi o pai da biologia evolutiva, tendo sido fortemente influenciado pelas ideias de Adam Smith, Thomas Malthus, e outros economistas. No entanto, através da teoria da Selecção Natural, demonstrou estar em desacordo com Smith. Na verdade, foi Darwin o responsável por identificar um profundo e alargado conflito entre os interesses individuais e colectivos, contrariando assim, a teoria da Mão Invisível.

Apesar de na altura ter chocado profundamente a igreja católica, a verdade é que a teoria da Selecção Natural nem chegou sequer a melindrar, incompreensivelmente, os fiéis seguidores de Smith. Incompreensivelmente porque como vamos ver mais à frente, as duas perspectivas são profundamente incompatíveis. O facto de essa incompatibilidade apenas hoje se ter tornado evidente, só pode ser explicado pela forma como as ciências sociais têm sido exercidas até há pouco tempo atrás: de forma autónoma e independente, em silos académicos que impediam a comunicação entre diferentes disciplinas.

De acordo com a teoria de Darwin, a selecção natural favorece os traços e comportamentos que aumentam o êxito reprodutivo individual. No entanto, a teoria de Darwin advoga que nem sempre isso contribui de forma positiva para os interesses mais vastos da espécie. Por vezes, determinados traços e comportamentos favorecem o êxito individual mas prejudicam o grupo no seu todo. As fascinantes armações dos Alces seriam uma magnífica ilustração desse fenómeno.

As Armações dos Alces

Os Alces, tal como os Elefantes-marinhos e os machos da maioria das espécies poligâmicas, lutam pelo acesso às fêmeas. As armações que possuem no topo da cabeça são a principal arma utilizada nas batalhas em que participam. O desfecho dessas batalhas depende, de forma crucial, do tamanho das hastes que compõem essas armações. Assim, quem possuir maiores armações possuí uma vantagem competitiva e consegue mais companheiras, aumentando a probabilidade de que os seus genes surjam com maior frequência na geração seguinte.
No entanto, embora ter armações com hastes maiores promova um maior acesso às fêmeas, torna também frequentemente mais difícil aos machos fugirem de lobos e outros predadores em áreas densamente arborizadas. Desta forma, o processo – Selecção Natural – que determina quais as características individuais que devem ser transmitidas à geração seguinte, é também a origem de um problema colectivo, do qual não consegue ser a solução: o tamanho das armações aumenta de geração em geração, tornando os Alces cada vez mais vulneráveis a predadores que habitem áreas densamente arborizadas.

O exemplo das armações demasiado grandes dos Alces foi retirado da natureza e ilustra um fenómeno social apelidado de “inteligência para um, estupidez para todos”. De facto, para a totalidade da população de Alces seria benéfico e desejável que o tamanho das suas armações fosse reduzido a metade. Isso aumentaria substancialmente as suas possibilidades de fuga a predadores e as batalhas pelas fêmeas continuariam a ser decididas da mesma forma, pois o que conta nesses confrontos é o tamanho relativo das hastes. Na vida quotidiana e na economia, somos também confrontados frequentemente com situações semelhantes, onde o “prosseguimento do interesse pessoal sem restrições” promove frequentemente custos para uma determinada sociedade ou grupo como um todo. A título de exemplo, vamos explorar dois casos emblemáticos: a prescrição excessiva de medicamentos pelos médicos, e a utilização de saltos altos desconfortáveis pelas mulheres.

Prescrição Excessiva de Antibióticos

Quando os pacientes apresentam pequenas infecções auditivas e respiratórias, muitos médicos prescrevem antibióticos. Se a infecção for causada por uma bactéria, o tratamento com antibióticos acelera a recuperação. No entanto, contribui também para tornar a estirpe da bactéria mais resistente ao antibiótico. Por causa disso, as autoridades de saúde pública recomendam aos médicos que apenas prescrevam antibióticos no tratamento de infecções graves. Vários países desenvolveram campanhas para diminuir a prescrição de antibióticos, de forma a diminuir o aparecimento de estirpes resistentes. No entanto, muitas vezes os profissionais de saúde desrespeitam as recomendações. Porque é que isto acontece?

Com certeza que a população médica não ignora o impacto que a prescrição de medicamentos em demasia pode ter no aumento das estirpes de bactérias resistentes. No entanto, tal como a selecção natural no caso dos Alces, a pressão das forças de mercado no caso dos profissionais de saúde contribuí para que ao prosseguirem o seu interesse individual sem restrições, ambas as populações contribuam para uma deterioração do seu interesse colectivo.

Não é uma única prescrição de antibióticos que origina uma estirpe de bactéria que lhe seja resistente mas sim o efeito agregado de todas as prescrições. Assim, embora alguns profissionais se recusem a tratar infecções leves desta forma, a verdade é que muitos acabam por ceder às pressões dos seus “clientes”. Caso não o façam, correm o risco de ver os seus pacientes escolher outro médico, ou até colocar em causa o seu prestígio profissional, devido à morosidade dos seus tratamentos. Desta forma, aplicando a ideologia da Mão Invisível aos cuidados de saúde, estamos a garantir que a competição e a “procura do interesse pessoal” garantam que ficamos todos pior, não só em termos de saúde como financeiramente: estima-se que nos Estados Unidos, país onde o sistema de saúde está totalmente liberalizado, cerca de um terço das 150 milhões de prescrições de antibióticos sejam totalmente desnecessárias.

Saltos Altos Desconfortáveis

Os saltos altos são desconfortáveis e dificultam o acto de caminhar. A sua utilização prolongada pode causar lesões nos pés, nos joelhos e nas costas. Porque será que as mulheres os continuam a utilizar? A resposta imediata poderá ser a de que as mulheres que os utilizam têm maior probabilidade de chamar a atenção sobre si, de forma positiva. Além de tornarem as mulheres mais altas, os saltos altos tornam-nas também mais formosas, obrigando as costas a arquearem-se, puxando o peito e o traseiro para fora e acentuando a silhueta feminina.

Mas mais uma vez, e tal como no caso das armações dos Alces, os interesses individuais de cada mulher, parecem entrar em conflito com o interesse colectivo da população feminina. De facto, se todas as mulheres usarem saltos altos, a vantagem de usar saltos altos tende a esbater-se. A altura é, como todas as outras dimensões humanas, uma métrica relativa. Se eu acrescentar 15cm à altura de todas as mulheres Portuguesas, a altura de cada uma delas em relação a todas as outras mantém-se, ou seja, a distribuição relativa da altura das mulheres Portuguesas não sofre alterações. Se em termos do interesse pessoal, acrescentar 15cm à altura de todas as mulheres em Portugal não altera nada, em termos colectivos, a diferença iria ser para pior, uma vez que todas as mulheres passam a calçar-se de uma forma menos confortável e saudável.

As Armações dos Alces, a Prescrição de Medicamentos, e o Uso de Saltos Altos, são tudo exemplos da falácia criada pela Mão Invisível de Adam Smith, que por demasiado sedutora, se tornou extraordinariamente perigosa. Como Darwin demonstrou através da teoria da Selecção Natural, a luta pelo interesse pessoal, resulta frequentemente em danos graves do interesse colectivo. Seja através de maior vulnerabilidade aos predadores, estirpes de bactérias resistentes, lesões nos pés, joelhos, e costas, ou ecossistemas esgotados, a verdade é que pôr na mão dos mercados e do interesse pessoal o futuro da humanidade, começa a revelar-se extremamente desastroso. Ao fazer do interesse pessoal o motor das sociedades, o capitalismo esqueceu-se que este se pode tornar em egoísmo e ganância, e que a satisfação pessoal dos cidadãos é sempre relativa, ou seja, depende da posição dos outros membros da sociedade. Esta pequena subtileza ignorada por Smith, reconhecida por Darwin, e puxada recentemente para o centro do debate socioeconómico, começa a ajudar-nos a compreender porque é que as sociedades sustentadas exclusivamente na prossecução de interesses individuais são levadas a caminhar ingenuamente rumo ao suicídio colectivo.

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Sou um psicólogo social, interessado em temas económicos e de consumo, e com a profunda convicção de que a felicidade das pessoas deve estar acima dos indicadores económicos e da saúde dos mercados. Assim, interessa-me explorar a relação entre o desenvolvimento económico e o bem-estar das populações. Nesse sentido, criei um blogue – There Are Free Lunches – onde coloco uma selecção de peças de informação sobre temas como a felicidade, economia comportamental, comportamento do consumidor, e tudo o que nos permita compreender de que forma os actores económicos do século XXI podem também ser pessoas felizes.