Almoços Grátis, Arquivo 2009-2013, Sociedade

Almoço Grátis Nº3: Trabalho com Significado

Eating the Profits - John George Brown

Eating the Profits - John George Brown

3º artigo da série Felicidade – A Ciência em que há Almoços Grátis.


Muitas pessoas pensam que o trabalho pago é uma actividade desagradável mas que deve ser suportada, pelo motivo de ganhar dinheiro. A investigação no entanto, evidencia que as pessoas obtêm satisfação do seu trabalho, e que em muitos casos gostam mais das coisas que fazem no trabalho do que das coisas que fazem fora dele. Embora os estudos apontem que trabalhar não é tão agradável como fazer sexo ou socializar depois do trabalho, as actividades de trabalho remuneradas podem não só proporcionar experiências gratificantes, como também estruturar o dia-a-dia das pessoas, constituir uma forma de conquistar respeito, e ser uma fonte de envolvimento, desafio, e significado.
O que sentimos acerca do nosso trabalho afecta também todas as outras áreas da nossa vida: existe uma correlação positiva entre a satisfação com o trabalho e a satisfação com a vida, em particular nos homens. A qualidade da relação com o nosso cônjugue é também afectada pela satisfação com o trabalho. Aspectos importantes para a qualidade do tempo em que não estamos a trabalhar, como por exemplo os nossos índices de vitalidade e energia, são condicionados pela nossa avaliação do interesse e gratificação proporcionados pela nossa actividade profissional.

Revisões recentes da vasta literatura sobre satisfação no trabalho, permitem verificar que os factores que determinam a existência de um “trabalho com significado”, são maioritariamente relacionados com a natureza e a forma como o trabalho é estruturado e que a remuneração constitui apenas um factor “higiénico”, ou seja, quando é percepcionada como justa não cria satisfação mas se assim não for percepcionada impede a satisfação no trabalho de emergir. Não é no entanto, um factor “motivacional”: se aumentarmos o salário de alguém que já se considera equitativamente bem pago, não conseguiremos aumentar a sua motivação e a satisfação que tira do seu trabalho. Curiosamente, alguns estudos sugerem mesmo, que se pagarmos a alguém para desempenhar uma tarefa para a qual se sente intrinsecamente motivado, podemos mesmo diminuir a motivação dessa pessoa para a tarefa e assim, baixar os níveis de satisfação que esta obtém no seu desempenho. Estes resultados foram observados até em crianças: ao atribuirmos recompensas pelo desempenho de um determinado jogo, ou actividade anteriormente considerada uma brincadeira (e.g., andar de trotinete, jogar ao pião) retiramos-lhe a sua componente lúdica e o seu significado recreativo, e esta passa a ser percepcionada como menos satisfatória.

Assim, parece que a quantidade de dinheiro que recebemos pelo nosso trabalho é importante até certo ponto, mas que não deve nunca deixar de ser apenas a means to an end. Utilizado a expressão de um ilustre professor de Ética Empresarial: o dinheiro deve ser para as organizações, o que os glóbulos vermelhos são para o corpo humano – essenciais para viver mas nunca a essência da vida. A partir do momento em que tornamos o dinheiro na preocupação central do nosso trabalho, corremos o risco de destruir a satisfação intrínseca que podemos obter do mesmo.

Assim, e pela terceira vez, outra premissa central da teoria económica clássica – “o agente económico deve procurar sempre a maximização do lucro” – pode ser um mau conselho, por contrária aos interesses dos seres humanos. De facto, as evidências apontam que, até no trabalho, o dinheiro é importante, mas que a partir de certo ponto pode-se tornar tóxico e destruir as motivações intrínsecas das pessoas e impedi-las de encontrar a “intencionalidade” – um significado pessoal e autêntico para as suas vidas.

Almoços Grátis e o Principio de Heisenberg

Um século de industrialização possibilitou níveis de crescimento económico sem precedentes na generalidade dos países ditos desenvolvidos e foi sem dúvida fundamental para o bem-estar das suas populações. No entanto, chegamos hoje a um ponto em que começa a ser claro que existem indicadores para lá dos económicos – indicadores de bem-estar – que permitam compreender quando e em que grau é que o crescimento económico origina ou diminui os níveis de bem-estar das populações.

O consumo de determinados tipos de bens permite aumentar o bem-estar das populações – melhores escolas, mais espaços verdes – e o consumo de outro tipo de bens não – os chamados regrettables: álcool, cigarros, Jogo, protecção policial. No entanto, ambos recebem o mesmo peso, em termos da sua contribuição para o PIB de um país. Ou seja, gastar um milhão de euros numa escola secundária ou em milhares de garrafas de vodka, traduz-se por um impacto igual em termos económicos (e.g., contribuição para o PIB) mas, como todos reconhecemos, um impacto diametralmente oposto em termos de bem-estar humano.

Outro aspecto que reforça a limitação dos indicadores económicos em termos de traduzirem o bem-estar das populações, está relacionado com o trabalho doméstico e o bem-estar que este pode significar para as pessoas. Actividades domésticas como cozinhar, fazer bricolagem, tomar conta dos filhos, são actividades que originam bem-estar por si só. Sabemos hoje que as pessoas valorizam mais um produto quando este é feito por si próprias do que quando é comprado – o chamado efeito IKEA (e.g., desenhar ou montar um móvel ou comprá-lo numa loja). Sabemos também, e se pensarmos nisso por um momento julgo que ninguém terá dúvidas – que a qualidade de vida de um casal e a sua felicidade, e dos seus filhos, aumentam substancialmente se estes puderem cuidar dos seus filhos, em vez de contratar outra pessoa para o fazer. Contraditoriamente, se comprar móveis e colocar os recém-nascidos num jardim-de-infância é melhor para a economia de um país, construir esses mesmos móveis em casa e estar com os filhos recém-nascidos em casa, é melhor para o bem-estar das populações. Assim, parece haver um paradoxo, entre o que são os interesses económicos (medidos pelos indicadores económicos actuais) e os interesses das pessoas, ou pelo menos, da maioria das pessoas.

De acordo com o principio psicológico de Heisenberg, aquilo que uma sociedade mede irá influenciar as coisas que esta procura. Se uma sociedade se limita a medir indicadores económicos, as pessoas dessa sociedade irão limitar-se a procurar alcançar objectivos económicos, em detrimento de outros valores. Se um país, além desses indicadores económicos, medir sistemática e regularmente indicadores de felicidade e bem-estar, a sua população irá, consequentemente, prestar mais atenção ao bem-estar humano e à determinação das suas causas, o que em última instância, e se conjugado com políticas públicas ajustadas, irá permitir aumentar os níveis de bem-estar dessa mesma população.

Pelo mundo inteiro, os políticos mais sábios desde sempre reconheceram a complexidade envolvida na definição dos objectivos que devem determinar as políticas de um país. No entanto, talvez nenhum o tenha feito de uma forma tão eloquente quanto Robert Kennedy, num discurso feito em 1968 na Universidade de Kansas, onde salientou a insensatez que implica medir o bem-estar dos Cidadãos, através do Produto Interno Bruto do País:

(…) o PIB do nosso país não garante a saúde das nossas crianças, a qualidade da sua educação, ou a felicidade das suas brincadeiras. Não traduz a beleza da nossa poesia ou a solidez dos nossos casamentos, a inteligência do nosso debate público, ou a integridade dos nossos representantes políticos. Não mede a nossa perspicácia, a nossa coragem, ou o nosso amor ao país. Ilusoriamente mede tudo… excepto aquilo que faz com que a vida mereça ser vivida.


Outros artigos da série Felicidade – A Ciência em que Há Almoços Grátis:

Almoço Grátis Nº1 – Equidade Social.

Almoço Grátis Nº2 – Trabalho com Significado.


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Sou um psicólogo social, interessado em temas económicos e de consumo, e com a profunda convicção de que a felicidade das pessoas deve estar acima dos indicadores económicos e da saúde dos mercados. Assim, interessa-me explorar a relação entre o desenvolvimento económico e o bem-estar das populações. Nesse sentido, criei um blogue – There Are Free Lunches – onde coloco uma selecção de peças de informação sobre temas como a felicidade, economia comportamental, comportamento do consumidor, e tudo o que nos permita compreender de que forma os actores económicos do século XXI podem também ser pessoas felizes.