Arquivo 2009-2013, Câmara Subjectiva

On the Road

There was nowhere to go but everywhere, so just keep on rolling under the stars.

On the Road - Walter Salles

On the road – Walter Salles, 2012

O novo filme de Walter Salles estreou finalmente em Portugal depois de já ter passado por todo o lado e ao lado de diversas tentativas de adaptação. Não é a primeira viagem filmada de Salles – que dirigiu em 2004 o belíssimo The Motorcycle Diaries, acerca da expedição do muito jovem Che Guevara pela América Latina antes do seu período revolucionário – no entanto, qualquer comparação com este último é inconsequente, já que On the Road é lamentavelmente inferior; o mesmo poderá com toda a certeza dizer-se de qualquer comparação com a obra autobiográfica de Jack Kerouac que dá origem, publicada em 1957; mas na ausência da leitura prévia dessa obra, não pode a apreciação do filme sofrer com o confronto; foquemo-nos, por isso, noutros aspectos.

Com a produção executiva de Francis Ford Coppola (detentor dos direitos do romance) e argumento de Jose Rivera (The Motorcycle Diaries), On the Road é baseado no manuscrito original de Kerouac divulgado em 2007 (mantendo os nomes das personagens do romance de 57) e segue a viagem pelas estradas dos EUA, no final dos anos 40, do aspirante a escritor Sal Paradise (alter ego de Kerouac, protagonizado por Sam Riley) e a sua transformante relação com Dean Moriarty (Garrett Hedlund) e a sua jovem esposa Marylou (Kristen Stewart), após destes lhe terem sido apresentados por Carlo Marx (Tom Sturridge).

Salles consegue manter o estilo documental que o caracteriza – e que tem o seu apogeu em The Motorcycle Diaries (2004) e, principalmente em Central do Brasil (1998) – e, de certa forma, retratar a inquietada juventude norte-americana do movimento Beatnik, movida pela busca incessante da mudança, da libertação sexual, da experimentação constante e do autoconhecimento. O pano de fundo da viagem – não apenas física, mas sobretudo interior – é ilustrado pela belíssima fotografia de Eric Gautier (responsável também pela fotografia de The Motorcycle Diaries), pela escolha inspirada da banda-sonora (com canções emblemáticas e a contribuição sempre interessante de Gustavo Santaolalla) e por um elenco recheado de estrelas. E de facto, tecnicamente não parece haver muito a dizer, no entanto, a evolução da trama é confusa e decepcionante; em primeiro lugar, o argumento tem uma estrutura algo desconectada do contexto da época e, por isso, em lugar de realçar a marginalidade das personagens em relação à sociedade e valores do seu tempo, apresenta a jornada de introspecção do trio protagonista de uma forma ligeira e superficial, tão ausente de verdadeira emoção que não consegue suportar a sua suposta evolução psicológica; quanto às interpretações, Garrett Hedlund foi de facto uma escolha acertada para o seu papel, mas Kristen Stewart consegue o desempenho mais destemido com a adolescente Marylou, um papel nos antípodas da personagem vampírica que lhe deu fama e que lhe permitiu provar que, mal ou bem, se consegue mover noutros terrenos. Sam Riley, por outro lado, constrói uma personagem demasiado tépida, modelada por um under acting que em nada evidencia a suposta complexidade e o processo de autodescoberta da personagem de Sal Paradise e o transforma numa espécie de mero seguidor de qualquer personalidade porventura mais interessante do que a sua. Os diálogos roçam frequentemente o aborrecido ao parecerem pouco mais do que o debitar de referências literárias e musicais. Os três viajantes vão-se perdendo em festas, álcool, drogas e encontros casuais com personagens importantes mas sem tempo para evoluir no ecrã – destaque-se Viggo Mortensen no papel de Old Bull/ William Burroughs e Amy Adams como a sua embriagada esposa (a par de Tom Sturridge, são o melhor do filme). A própria montagem sofre de uma falta de ritmo notória, que torna o filme arrastado e incapaz de transmitir a atmosfera de manifesto que supostamente a obra destila.

Em suma, acaba por ser paradoxal a falta de rumo num road movie supostamente dirigido à descoberta, que apesar de visualmente cuidado e do seu inegável valor enquanto adaptação cinematográfica muito aguardada de uma obra venerável, carece de espessura dramática, e por isso não consegue afirmar-se enquanto objecto cinematográfico independente da sua matéria-prima. On the Road enche a estrada, mas não enche as medidas.

Classificação: 5/10

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