Não é uma prequela. Mas faz lembrar qualquer coisa.
Prometheus – Ridley Scott, 2012
Na mitologia grega, Prometeu era um titã descendente da antiga raça de deuses destronada por Zeus que moldou o Homem com as suas próprias mãos, a partir de terra e água. Mais tarde, roubou aos deuses o Fogo para o entregar ao Homem. Zeus tê-lo-á punido pela sua ousadia, condenando-o a uma pena eterna; amarrado a um penhasco do monte Cáucaso, Prometeu passou a ser diariamente visitado por uma águia que lhe debica o fígado. Para que o castigo se cumprisse por eras e eras, o órgão regenerava todos os dias.
Ridley Scott chamou Prometheus à sua (nova) nave espacial, um nome apropriado, tendo em conta o objectivo dos seus tripulantes: encontrar os nossos criadores e desvendar o mistério da origem da Humanidade. As raízes do argumento, escrito por Jon Spaihts e Damon Lindelof, tocam teorias ancestrais de espantosa actualidade que sugerem que a Criação é, na verdade, de responsabilidade alienígena. A história segue um par de arqueólogos, Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green), que descobrem uma série de representações rupestres, de diferentes origens culturais e separadas no tempo, que apontam para um lugar no espaço. Esse lugar encerraria a verdade sobre a Criação. Peter Weyland (Guy Pearce) partilha desta crença e resolve incumbir o casal de uma expedição a bordo de Prometheus, capitaneada por Meredith Vickers (Charlize Theron), rumo ao planeta LV-223. O ano é o de 2093. A verdadeira viagem inicia-se com o despertar das personagens de anos de sono criogénico – como em Alien.
Contudo … Prometheus não é uma prequela de Alien. A produção e o realizador fizeram questão de o repetir vezes sem conta – provavelmente porque essa admissão seria castradora do potencial individual do filme – mas certamente utilizaram todos os elementos da saga para criar um universo análogo e para encontrar um desígnio para a narrativa. Os argumentistas pretenderam, no entanto, que a história não saísse prejudicada por expectativas ou comparações e injectaram-lhe uma componente de questionamento muito interessante – teleológico, cosmológico e religioso. No incontornável clássico da ficção científica de 1979, filmado na adolescência dos efeitos especiais, os silêncios tomam conta da cena, a acção é lenta, misteriosa e tensa, o ambiente é denso, de total suspense, apenas rasgado por momentos de verdadeiro horror. Prometheus é um filme de acção, não possui o tom sombrio de Alien, é agitado e frenético, e não permite recriar a ambiência certa para a emersão dessa impressão de mistério e tensão. Por outro lado, a premissa de Prometheus é também bem mais mística e filosófica, ainda que a narrativa acabe por se debruçar – pelo menos aos olhos dos entusiastas de Alien – nas origens e intentos do monstro implacável que Alien nos mostrou. Se Prometheus não é uma prequela de Alien é, pelo menos e seguramente, uma variação sobre o tema que sobrevive à sombra do seu imaginário. Os fãs da saga passarão todo o filme a procurar e a identificar os muitos elementos que permitam a ligação – que, não sendo absolutamente directa, decididamente existe. Restará saber até que ponto essas convergências são intencionais ou não passarão, na sua maioria, de uma projecção do público.
Prometheus contém, por exemplo, duas personagens-chave (não contabilizando o estafermo protagonista) que lembram imediatamente figuras que Alien imprimiu no nosso imaginário: Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) no papel de uma heroína que, ao longo da trama, é compelida a converter-se numa guerreira por força das circunstâncias, e David (Michael Fassbender), uma personagem que prolonga – ou antecede – toda uma geração de andróides perspicazes de sinistras intenções, presentes nos restantes filmes da saga Alien. No entanto, o calcanhar de Aquiles de Prometheus reside precisamente na debilidade das personagens, embora possamos destacar o esforço de Charlize Theron (no papel de Meredith Vickers, a capitã da nave) e muito especialmente o de Michael Fassbender (no papel de David). Noomi Rapace, apesar de dar vida a uma personagem determinante, é incapaz de se libertar da comparação com Sigourney Weaver, ficando a sua Dr.ª Shaw bem aquém do carima de Ripley – eventualmente mais por responsabilidade da personagem do que por falta de talento. A personagem de Elizabeth Shaw poderia ter um enorme potencial, mas falta-lhe o nervo e a desenvoltura de Ripley. De resto, à excepção do autómato David (que, por definição, não é humano), as personagens são pouco desenvolvidas e não permitem a identificação com os seus sentimentos, motivações e medos. As ligações a Alien acabam, por isso, por se sintetizar no universo onde decorre a acção. O argumento tinha tudo para fazer uso da vantagem especulativa da premissa e para conter diálogos estimulantes em torno da questão central, no entanto, paradoxalmente, eles são parcos e vazios. Por essa razão, as verdadeiras estrelas do filme não são humanas: quem brilha em Prometheus é o monstro assassino que nunca nos saiu da retina, e claro, Fassbender no papel do humanóide de serviço – frio, calculista, obscuro e envolvo em mistério.
A grande mais-valia do filme será então, sem dúvida, a sua composição visual. Separado do primeiro Alien por mais de 30 anos de evolução tecnológica, Prometheus é sobretudo uma actualização desse universo – um assombro técnico, com uma fotografia, 3D e efeitos especiais state-of-the-art – com uma estética futurista de paisagens e interiores a fazer lembrar, em alguns momentos, a ambiência de Blade Runner (1982), numa versão menos poética mas mais polida. E muito embora não seja uma obra do calibre de Blade Runner, Prometheus é um grande filme de entretenimento, um regresso muito aguardado de Ridley Scott ao género que ele ajudou a definir e que constituiu o prelúdio da sua carreira no cinema e, se não mais do que isso, uma impecável viagem visual que eleva, de uma forma muito empolgante, o imaginário sci-fi para o séc. XXI.
Classificação: 6/10

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