Arquivo 2009-2013, Sociedade

Um Fungagá

Fungaga

É a lei da selva.

Numa determinada savana viviam os andrajosos gnus. Feios e mal-cheirosos, viviam sem grandes objectivos. Passavam os dias a ruminar e a dizer mal das zebras, que eram mais bonitas e educadas – umas convencidas! – e dos predadores, que comiam às suas custas.

Por sua vez, as zebras de porte equídeo passeavam-se pela savana nas suas elegantes riscas, olhando para os gnus com sobranceria. Também sofriam com as hienas esfaimadas e com os ociosos leões, mas, como corriam mais rápido que os gnus, iam-se safando melhor.

As hienas andavam sempre de dentes à mostra e a farejar o ar, não fossem perder uma oportunidade de apanhar um gnu, ou até mesmo uma zebra. Caçavam com frequência mas nem sempre com sucesso, e mesmo quando tinham sucesso podia aparecer um leão que lhes roubava a presa.

Os leões eram poucos. Fortes, impunham-se às hienas para lhes tirar uma carcaça ou outra e por isso nem sempre precisavam de caçar.

Viviam todos na harmonia possível, cada qual no seu estilo. Os gnus eram milhares, as zebras centenas, as hienas dezenas e os leões meia-dúzia. Os leões, que pareciam dormir o tempo inteiro, não comiam tanto quanto queriam, mas não passavam fome. Nem as hienas, que estavam sempre atarefadas com caça ou defesa de território. Tanto zebras como gnus viviam contentes, caçados de vez em quando, mas em número suficiente para que os abatidos fossem repostos com alguma facilidade. Havia a sensação de equilíbrio, apesar dos ocasionais conflitos.

Um dia, um grupo de hienas aproximou-se do bebedouro. Zebras e gnus, receosos pela sua pele, abriram caminho aos sorridentes predadores. Olhando em volta, com o ar de quem é dono de uma qualquer razão ainda por descobrir, uma hiena falou. Tal era a sua eloquência que tanto os gnus barbudos como as zebras aprumadas ouviram com atenção. A hiena falava de futuros risonhos, de uma revolução contra a tremenda injustiça de viver sob o jugo dos leões. Eles comiam o que e quem lhes apetecia. É certo que as hienas também caçavam naquela savana, mas era a natureza delas e tinham que comer. Comiam os doentes e os fracos, contribuíndo para a boa saúde das espécies predadas, e punham muito esforço nessa sua função pelo bem comum dos animais da savana. E o que é que faziam os leões? Dormiam o tempo todo. Quando não estavam a dormir aterrorizavam todos os outros animais, hienas incluídas. Era preciso fazer alguma coisa. Todos os animais presentes aplaudiram.

Ouvindo os ruídos desta revolta, o velho leão desceu ao bebedouro para se inteirar do que se passava. Zebras e gnus, espicaçados pelas palavras da hiena, vociferavam por ordem na vida desregrada da savana, que permitia que uns tivessem mais ócio do que outros (e aqui apontavam cascos e focinhos ao velho leão). O leão perguntou, então, se as coisas não funcionavam bem assim, como estavam, onde cada um faz o que sabe melhor. Mas os zurros e bramidos eram tais que o leão abandonou a assembleia ao seu buliço.

E assim as hienas tomaram conta da savana. Decidiram, em nome da paz entre espécies, que se acabassem com as caçadas. Em troca, as manadas teriam que escolher um certo número de animais de entre as suas hostes para serem abatidos para alimentação dos carnívoros. Pediram três animais por semana. Fez-se uma votação entre todos os animais para decidir quais os animais a abater e o voto dos gnus, em número superior ao dos outros animais, fez cair sobre as vaidosas zebras a obrigação de oferecer aos carnívoros os três animais. Ora, por uma questão de justiça, as hienas logo sugeriram que os gnus oferecessem um dos seus, pelo menos. E assim ficou decidido que as hienas teriam quatro animais por semana, e que dariam um aos leões, para que também eles deixassem de caçar.

Ora, como antes da mudança seriam caçados, no máximo, uma zebra e dois ou três gnus por semana, em pouco tempo o número de zebras caiu de forma drástica. O número de gnus, por sua vez, aumentou. As zebras começaram a ficar incomodadas com esta realidade e as hienas logo decidiram, sem consultar as manadas, que se passariam a matar só duas zebras por semana, mas quatro gnus.

Os leões, mais fortes e poderosos, decidiram exigir mais um animal por semana para eles, já que as hienas cobravam agora seis animais às manadas. Com mais hienas para alimentar e os leões mais exigentes, começou a verificar-se alguma caça fora-da-lei. Prometendo pôr um fim a tão imoral prática, as hienas cobraram mais dois gnus, uma vez que a população de zebras estava já quase extinta. Mas, cobradas todas as carcaças em gnus, logo também a população de gnus começou a definhar.

Em pouco tempo, a savana era habitada só por alguns leões e numerosas hienas, outrora gordas e ociosas, agora obrigadas ao canibalismo e a fugir da fome dos leões.


A opinião veiculada neste artigo é da responsabilidade exclusiva do(s) seu(s) autor(es) e não da ZON MADEIRA.

Comentar pelo Facebook

Filed under: Arquivo 2009-2013, Sociedade

by

Gonçalo Taipa Teixeira

Gonçalo Taipa Teixeira nasceu no Funchal há pouco mais de 40 anos. Depois de demasiados anos sem acabar cursos das ciências da vida, fugiu para o Reino Unido para fazer, e terminar, o curso BA in Creative and Professional Writing. Trabalhou, como técnico, em estudos de impacto ambiental, até se decidir dedicar à escrita e às traduções. Hoje colabora com a Lust e escreve como gosta, à revelia do Acordo Ortográfico de 1990.