Mad Men, The Wire, Sopranos e Avatar. Algumas das actuais séries de televisão norte-americanas, estão entre as produções mais próximas ao longínquo cinema clássico de Hollywood dos anos 40 e 50. ___Mad Men___, por exemplo, encarna a estética visual dos anos 50-60, e reveste-se de todos os artifícios da encenação clássica: campo/contra-campo; câmara firme, fluída, que descreve o espaço sem o espectador se aperceber da presença física do dispositivo de captação de imagens; a cor e os cenários de época estudados ao milímetro (deduz-se). Mas também combina uma estética minimalista, quer na encenação, em diálogos curtos, directos, bem delineados, por vezes peculiares ou até mesmo raiando o filosófico, movimentos de câmara construídos na perfeição para conjugar em cada personagem uma atitude ou carácter específicos; quer nos cenários, quase sempre interiores, com o absolutamente necessário de modo a nem nos darmos conta da sua existência. Sobressai, igualmente, a opção de não recorrer a imagens de arquivo de época para contextualizar a história – com a excepção de alguns casos pontuais, justificados no interior da própria narrativa, e sempre mediados pela tv ou projector de filmes. Essa contextualização encontramo-la em pequenos detalhes, nos gestos, nos adereços, no vestuário, etc.
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___Mad Men___ prima por todos estes aspectos que denotam não só uma produção extremamente cuidada, com um orçamente à altura, mas igualmente uma capacidade de criar algo que não seja apenas queimar tempo, como se diz, mas que suscite, também, um interesse um pouco mais completo. O que dizer da leitura em voz-_off_ que faz a personagem principal, num dos episódios da segunda temporada, de um dos poemas de Frank O’Hara – “Mayakovsky”, do livro com o bizarro título _Meditations in an Emergency_ de 1957–, o que desencadeou uma pesquisa “massiva” nos motores de busca da internet à procura de mais informação sobre um dos maiores poetas contemporâneos dos Estados Unidos?
Numa outra série como ___The Wire___, embora também siga uma linha narrativa convencional, existem sequências em que a câmara se fixa numa personagem, ou numa porção de realidade, e expande-a por alguns momentos, que não deixam de ser tremendamente atípicos no habitual esquema televisivo de aceleramento grosseiro. Veja-se, a título de exemplo, as sequências finais da temporada 4 desta série, ou do último episódio da série ___The Sopranos___ (servindo-se da suspensão narrativa). Esta última série combina, de forma inteligente e apurada, a encenação mais clássica com a mais moderna, na qual se empregam elipses que sugerem determinadas emoções, pensamentos, memórias ou sonhos, ou colocam em iminência uma acção ou reacção, o mesmo acontecendo com ___Mad Men___, que na sequência apresentada aqui em baixo, nos oferece um dos momentos mais sublimes, e raros, da história da televisão. Instantes que reflectem aquilo que poderíamos definir como sendo o cinema no seu máximo: uma linguagem que articula, com o ágil e coerente artifício da montagem, imagem e som (e como a música e a intrusão de sons naturais nesta sequência é fundamental).
Mad Men – Rivers of Babylon David Carbonara
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Por outro lado, a experiência em três dimensões de ___Avatar___, de James Cameron, é a última fronteira de entretenimento vinda de Hollywood, esse planeta habitado por estranhas criaturas, imersas num capitalismo que, de há uns anos para cá, tem vindo a mostrar interesse por temáticas de cariz ecológico (o chamado “capitalismo consciente”). ___Avatar___ é um típico blockbuster, com todos os ingredientes habituais dos géneros de ficção científica, acção e drama, combinando-os numa história onde os interesses económicos (para variar!) falam mais alto, e tentam afastar à força um povo da sua terra natal (à imagem de uma atitude tipicamente colonizadora). Se Cameron, como refere Eduardo Cintra Torres no P2 do _Público_ do dia 15 de Janeiro, abdicou da nacionalidade americana quando George W. Bush foi eleito, talvez esse facto tenha tido um reflexo directo no protagonista do filme, que renuncia à sua própria carcassa humana, para se unir completamente a um outro povo, que vive em plena harmonia com a natureza. Uma fábula como esta tenta aliar o útil com o agradável, a experiência massificada de entretenimento que pretende um escape fácil ao quotidiano rotineiro, com uma espécie de eco-consciência, embora nunca em excesso, e para que não haja mal-entendidos, as personagens são perfeitamente traçadas no sentido de não deixar no espectador quaisquer dúvidas de quem é o bom e o mau da fita, quem emprega uma misteriosa força espiritual para fazer frente ao poder da força bruta – ao fim e ao cabo, continua a ser o homem branco, o estrangeiro, o invasor, apesar de preocupado com a origem de todos os males (o planeta Pandora), a liderar o outro, o nativo.
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Já lá vão longos anos quando Jean-Louis Baudry, num famoso texto intitulado “Effets idéologiques produits par l’appareil de base” (“Cinema: efeitos ideológicos produzidos pelo aparelho de base”, 1970), falava da evolução dos diversos dispositivos ópticos da imagem, e de como essa evolução, desde as duas concepções da perspectiva (a grega e a do renascimento) até às imagens em movimento, deram origem à experiência cinematográfica como um todo espectacular. A projecção, agora com a visão em profundidade de ___Avatar___, é um dispositivo que pretende que o espectador entre ainda mais no interior estéril da produção comercial. Entrar, neste caso, é ficar ofuscado pela tecnologia e não, como alguns desejariam, fazer esse exercício humano (talvez demasiado humano!) de sair de dentro de si para olhar com outros olhos a realidade que o rodeia. «A linguagem é o uso que fazemos dela» dizia Wittgenstein, e os dispositivos são o uso que deles fazemos: ideológicos, para uns, que preferem não olhar através deles e que só os identificam como uma forma mais de alienação contemporânea; para outros, os ditos tecnofílicos, descortinam um esplendor de possibilidades fúteis com aplicações algo duvidosas numa sociedade de avatares virtuais (bloguers, twitters e futuros afins).
Enquanto séries como ___Mad Men___, recuperam e reinterpretam as directrizes clássicas do cinema, que no fundo fizeram deste, primeiro nos EUA, e depois em todo o mundo, uma próspera indústria de sonhos colectivos, filmes como ___Avatar___ de Cameron, lançam âncora na tecnologia, em orçamentos multi-milionários, numa versão de capitalismo (aparentemente) preocupado com o meio ambiente e o futuro do homem. Em última análise, este pseudo despertar das consciências, logo após serem retirados os óculos 3D do rosto, não surte qualquer outro efeito para além de uma falta de optimismo na raça humana, ou pior, da discussão sobre se a qualidade da imagem é suficiente ou se o 3D é realmente uma revolução assim tão relevante.
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