Arquivo 2009-2013, Cinema

Herzog e a Verdade Extática

Herzog e a Verdade Extática

Werner Herzog: em DVD e em livro. A Fnac acaba de editar uma colecção em dois volumes, com 6 discos dvd cada um, do realizador alemão Werner Herzog. E a Edições 70, em conjunto com o IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema Independente e na sequência da retrospectiva dedicada a Herzog, editou Sinais de Vida. Werner Herzog e o cinema, um conjunto de entrevistas com este cineasta tão profícuo quanto polémico.

Esta edição exclusiva da Fnac conjuga bem os filmes de ficção com os documentários, que aparecem como extras. Ao contrário da edição espanhola, que separou deliberadamente a ficção do documentário, aqui podemos apreciar as ressonâncias num e noutro. Sobre esta distinção, Herzog é peremptório, quando manifesta o seu desagrado em relação ao dualismo entre estes dois géneros cinematográficos (para ele não se deverá colocar tal diferença). Segundo Herzog, não existe uma verdade objectiva, documental, neutra, a verdade é sempre construída, distanciada, estilizada, sendo esta última uma palavra fundamental para entender a sua visão do mundo, constante em toda a sua filmografia. A estilização é o fio condutor (levado ao extremo em Coração de Gelo, de 1976, no qual os actores foram submetidos a hipnose) com uma marcada presença visual, e onde a paisagem desempenha um papel de destaque, indiciadora do espírito e da persistência humanos.

A colecção não segue uma ordem específica e/ou linear. Nem cronológica, nem temática. E talvez este possa ser um ponto fraco, sobretudo para o público não familiarizado com este autor. Dispersas estão as primeiras obras mais experimentais: Sinais de Vida, Vilões e Anões e África – Paraíso e Inferno, nas quais se podem encontrar as sementes de todo o seu percurso posterior; os filmes com Klaus Kinski, figura problemática e com a qual manteve uma relação amor/ódio (ver: O Meu Melhor Inimigo, de 1999, no vol. 1): Aguirre – O Aventureiro, Cobra Verde, Woyzeck – O Soldado Atraiçoado, Fitzcarraldo e Nosferatu – O Fantasma da Noite; ou os dois filmes com Bruno S.: O Enigma de Kasper Hauser e A Canção de Bruno S., talvez os exemplos mais significativos quanto à alienação do indivíduo na sociedade, forçado a viver com leis que não criou. Determinado em explorar os limites, o cinema de Herzog é extremamente físico, mas igualmente espiritual, componente essencial que se vincula directamente com o romantismo e o idealismo germânicos. A literatura, a pintura e a música são fontes inesgotáveis de criação, até mesmo quando o tema é a própria realidade, aqui intensamente estruturada pelos princípios da poesia. E é precisamente através dessa roupagem poética que somos guiados por algo que se revela a si mesmo, como uma voz vinda de um lugar distante, desconhecido, que nos encaminha pelas entranhas de narrativas que se assumem apenas como mistério.

Quanto ao livro Sinais de Vida. Werner Herzog e o cinema, é uma excelente oportunidade para conhecer mais a fundo o método de trabalho e a postura estética e ética de um autor que soube sempre perseguir aquilo em que acreditava, e fê-lo através de um meio que resulta de uma síntese de todas as artes. Surpreendem, pela sua agudeza, finura de linguagem e uma mostra de grande conhecimento e sensibilidade teóricos, os textos de Grazia Paganelli, directora do Museo Nazionale del Cinema de Turim, que antecedem cada bloco de entrevistas, dedicado a um tema específico.
O livro complementa-se com os seguintes anexos: dois textos de Herzog (entre os quais o famoso “A Declaração do Minnesota”, sobre a verdade e o facto no cinema documentário), imagens de rodagem, uma biografia e uma filmografia bastante completa e actualizada.

Fica apenas uma frase de um dos textos do próprio Herzog, alguém que sempre rejeitou quaisquer análises teóricas sobre o seu trabalho:

>Na arte figurativa, na música, na literatura e no cinema é no entanto possível um nível mais profundo de verdade, uma verdade poética, extática, dificilmente apreendida por ser misteriosa e áspera, que só pode ser atingida através da imaginação, da estilização e da criação.

(“Do absoluto, do sublime e da verdade extática”, in Sinais de Vida. Werner Herzog e o cinema, Lisboa, Edições 70, 2009, pág. 217)

Colecção Werner Herzog em DVD (Exclusivo Fnac):

Vol.1: Aguirre – O Aventureiro; Cobra Verde; Sinais de Vida; Woyzeck – O Soldado Atraiçoado; Fitzcarraldo; O Meu Melhor Inimigo.

Vol. 2: Vilões e Anões; O Enigma de Kasper Hauser; A Canção de Bruno S.; Nosferatu – O Fantasma da Noite; Coração de Gelo; África – Paraíso e Inferno.

Livro:

Grazia Paganelli: Sinais de Vida. Werner Herzog e o cinema, Lisboa, Edições 70, 2009.

Werner Herzog na Internet:

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Nasceu no Funchal em 1971. Licenciado em Artes Plásticas/Pintura, pela Universidade da Madeira (UMa). Doutorado em Estética e Teoria da Arte/Comunicação Audiovisual, pela Universidad Castilla La Mancha. Organiza, programa e lecciona ciclos e workshops sobre cinema. Trabalha e expõe nas áreas do vídeo digital, instalação e arte sonora e comissariou diversas exposições. Lecciona no Curso de Arte e Multimédia da UMa.