Arquivo 2009-2013, Cinema

Histórias de Caçadeira

Jeff Nichols - Histórias de Caçadeiras

Uma estreia absolutamente fabulosa.

Shotgun Stories, de Jeff Nichols

Uma estreia absolutamente fabulosa, chega-nos, não nos cinemas (infelizmente!), mas em suporte dvd, esse substituto privado, individualista e tão generalizado da experiência cinemática.

Histórias de Caçadeira (Shotgun Stories, 2007), a primeira longa-metragem de um jovem Jeff Nichols (nascido em 1978), mantém com garra e tacto um ritmo por vezes aparentemente invariável, outras, parecendo anunciar um crescendo de acção tipicamente comercial que, definitivamente, não chega a ser. A violência manifesta neste filme é de outra ordem; constrói, de forma inteligente, uma tensão concentrada que contrasta com uma mise-en-scène que não é propriamente lenta, mas sim compassada, reflexo directo do contexto geográfico no qual se situa a história. A aparente apatia dos protagonistas reforça este aspecto, já que o filme deixa transparecer a vivência do próprio realizador no Arkansas, região sudeste dos Estados Unidos, onde passou a sua infância. Há uma imobilidade da câmara que revela um cuidado extremo em cada plano, autênticas snapshots da América profunda, que nos reportam, por vezes, para as fotografias de um William Eggleston (não só em relação ao tema, mas principalmente na atenção aos detalhes e à cor). Tanto o espaço interior como o exterior são tratados com a mesma atitude: indiciar uma cartografia não apenas do quotidiano, mas também do drama humano que lhe é subjacente, embora por vezes esse drama esteja maquilhado. É precisamente essa camada artificiosa que o realizador quer anular, tornando visível a porosidade do real.

Já houve quem apontasse Terence Malick como uma influência determinante, se bem que este último leve o lirismo até às últimas consequências. Veja-se o caso de The New World, de 2005, um longo poema visual. Shotgun Stories não chega a ser lírico, contudo, não está completamente fora desse domínio. É um olhar atento e preciso, mas ao mesmo tempo expontâneo, sobre uma realidade tão fechada como a de duas famílias, numa zona rural, que têm um pai em comum. O ódio perante um pai alcoólico e ausente que acaba de falecer, a sede de vingança que se gera quando surge o confronto entre um passado que ainda não foi esquecido e um presente alterado, estão à flor da pele.

Há aspectos da narrativa que são introduzidos de forma gradual, subtil, sem grandes explicações nem juízos de valor, evidenciando, em algumas sequências, essa necessidade de fazer uso de um não-mostrar perfeitamente bressoniano. O som pode assumir esse papel, de continuar uma acção, ou de sugerir uma situação que o espectador deverá pressentir. Ou então a câmara simplesmente desvia o olhar, criando um espaço de respiro, de suspensão, entre um momento e outro.

A sinceridade com que o tema é abordado, e a aparente simplicidade que desperta, denuncia uma visão extremamente sensível e um controlo consciente do dispositivo narrativo. Vamos conhecendo pouco a pouco as esperanças e os desencantos de cada uma das personagens principais, a dureza imposta pela paisagem – muito embora Nichols lhe confira uma beleza simultaneamente familiar e estranha –, tendo em conta a existência pesada de um isolamento geográfico e a pouca abertura de perspectivas que tal supõe. É um limite paradoxal que advém de um horizonte infinito (o formato anamórfico da imagem, 2:35:1, acentua ainda mais este desfasamento). Resta sempre muita coisa por dizer, mas Shotgun Stories di-lo com imagens, e é nos olhares das suas personagens que se expressam silêncios e pequenas pausas que ditam um dia-a-dia circular, apenas corrompido pela inutilidade de um impulso vingativo.

Histórias de Caçadeira é, sem dúvida alguma, uma lufada de ar fresco, sobretudo porque não encontramos certos tiques habituais do cinema independente americano (tal como o excesso de música). Como toda a boa arte, não impõe, sugere; não condiciona, evoca.

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Nasceu no Funchal em 1971. Licenciado em Artes Plásticas/Pintura, pela Universidade da Madeira (UMa). Doutorado em Estética e Teoria da Arte/Comunicação Audiovisual, pela Universidad Castilla La Mancha. Organiza, programa e lecciona ciclos e workshops sobre cinema. Trabalha e expõe nas áreas do vídeo digital, instalação e arte sonora e comissariou diversas exposições. Lecciona no Curso de Arte e Multimédia da UMa.

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