Arquivo 2009-2013, Interrogatório

Bernardo Nascimento e North Atlantic

Bernardo Nascimento - North Atlantic

Entrevista com o realizador de North Atlantic.


A Lust entrevistou Bernardo Nascimento – escritor, realizador e produtor de North Atlantic, filme que ganhou o prémio do público para a melhor curta metragem no Milan International Film Festival.

Não falámos do filme – que ainda não vimos -, nem do prémio – que ainda não tinha chegado. Mas a conversa, por email, valeu a pena.


Bom dia, Senhor “Director”. Vamos começar com uma fácil?
Lembras-te da primeira vez que quiseste fazer cinema? Conta lá.

Foi a fazer cinema. Durante a minha primeira rodagem, uma longa do Fonseca e Costa. Passámos meses em preparação: guião, actores, décores, guarda-roupa, e isso entusiasmava-me, mas foi só no primeiro dia de rodagem que a “ficha caiu”. Olhas para o monitor e vês materializado o mundo que se andou a construir. Depois é a captura, a cristalização daquele momento único. É quase mágico.

E antes disso, também querias ser jogador de futebol?

Não. Tive a minha fase [de] bombeiro, mas desde que isso se esfumou, nenhuma ambição tão forte a veio substituir. Queria viajar, mas não sabia bem a fazer o quê. Jornalismo talvez. Daí veio a idea do documentário, e o cinema surge por acidente.

E então o documentário, onde é que ficou? Não teria sido mais fácil começar por aí?

O documentário está no “forno”. Mais fácil? Não. É um bicho diferente. Faz-se com menos meios mas demora mais tempo.

Trabalhaste em vários países e em filmes muito diferentes. É normal esse ecletismo quando se começa no cinema ou o teu percurso resulta de uma escolha deliberada?

Resulta de um escolha deliberada. Mas não minha, do mercado. Também me pus a jeito: eu queria viajar e fui aceitando propostas que me permitiam fazê-lo. Mas “em cinema” a maior parte das pessoas que conheço viaja tanto ou mais [do] que eu.

Qual é a diferença entre trabalhar num filme de autor e num filme “industrial”?

Num filme industrial, hospedam-te num bom hotel. Num filme de autor, não tens tempo para dormir.

E qual é a diferença entre um filme de autor e um filme “industrial”?

Fora o orçamento, talvez seja o grau de “preocupação” com o público. As duas coisas estão naturalmente ligadas. Quando alguém investe 50 milhõesde dólares num filme, fá-lo com uma expectativa natural em relação ao retorno… O “truque” reside na construção de uma carreira em que consigas ter ambas as coisas: o orçamento de um filme industrial e a liberdade de um filme de autor. O Woody Allen foi, durante algum tempo, um bom exemplo disso.

E hoje, ainda é exemplo de alguma coisa?

O que quer que seja, já não me entusiasma… Mas já nos deu coisas boas suficientes, agora que se divirta como queira.

Achas mesmo que a capacidade de síntese é menos importante numa longa do que numa curta?

Não. [sorriso] Mas é mais importante numa curta do que numa longa! Brinco. O que acho é que numa longa se podem usar códigos, mecanismos – no fundo uma linguagem – que dificilmente caberia dentro de uma curta.

O som, a cor, o 3D… O que falta para dar espessura à terceira dimensão?

Não sei. Nem [sei] se é necessária. Também não sei se percebi bem a pergunta…

My bad. Talvez seja realmente uma pergunta para o Manoel de Oliveira, que passou por todas…
De qualquer modo, vês-te a filmar em 3D?

Nem por isso. Para mim, o 2D só começou agora. Mas não me oponho ao 3D. Para já, consumo e produção estão ainda muito polarizados na tecnologia em si. Quando esta se tornar mais invisível, então sim, chegaremos a uma simbiose mais equilibrada entre forma e conteúdos. Foi o que aconteceu com a introdução de outras tecnologias (som, cor)…

Muitos dos que colaboraram na tua curta não receberam qualquer remuneração. Como é que se convence as pessoas a trabalharem de borla para nós?

Muitos? Nenhum!

Desde que comecei a fazer cinema, tive a sorte de trabalhar com pessoas com muito talento. Alguns desses ficaram meus amigos, e foi por aí que comecei. Eles gostaram muito do guião e arranjaram um buraco no calendário para vir transformá-lo num filme. O resto aconteceu naturalmente.

É tambem um questão de cultura profissional. Em Londres, actores e técnicos “oscarizados” aceitam fazer curtas sem dinheiro, se acharem que o projecto é válido. Todos passaram por esta fase e não se esquecem. É uma coisa saudável e para mim, um privilégio.

Sem ser a mariquice do “Vão atrás dos vossos sonhos”, tens algum conselho que possas dar a quem quer fazer cinema?

Para começar? Sim.

Dividir o tempo desta forma: Escrever, escrever, escrever (papel e caneta): 40%. Filmar com máquina fotográfica, telemóvel, etc: 10 % (com amigos como actores, mesmo sem luzes). Editar, editar, editar (software barato e um pc): 40%. Mostrar a toda a gente: 10%. Voltar à casa zero.

Sintetiza-me o que é o cinema através de uma única cena.

Essa é mais dificil… tão difícil que não consigo escolher uma. De resto, sou pouco amigo de maximalismos e na verdade, o cinema, para mim, não se pode sintetizar numa cena única.

O que é que o cinema não é?

Lá estás tu. Pergunta-me isso daqui a 30 anos.

Se estivesses em Portugal, tinhas ido à manifestação de 12 de Março?

À terceira, lá me vais conseguir entalar…

Não ter vivido em Portugal nos últimos 6 anos retira-me uma certa propriedade sobre a questão. No geral, incomoda-me fazer parte de um movimento que, de tão vasto, incorpora correntes com as quais não me identifico. Estou no entanto solidário com a reacção à precaridade profissional de muitas das pessoas da minha geração. A minha situação não é diferente, mas vejo essa responsabilidade como minha, por via das opções que tomei.  Dito isto, no último ano beneficiei, pela primeira vez , de um apoio do Estado que contribuiu significativamente para um salto na minha carreira. Mas voltando à tua pergunta: não vejo o trabalho como um direito, antes como um dever. Primeiro, para contigo, e depois para com todos os que te rodeiam. E quando o cumpres, não está certo que o Estado não te defenda. Em suma, identifico-me com todos aqueles que, não sendo vítimas da inércia e de expectactivas pouco realistas, não esperam nada do Estado a não ser que cumpra o seu papel regulador. Se era esta a ideia da maioria dos manifestantes, talvez tivesse ido à manifestação.


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