Arquivo 2009-2013, Estórias de Alcova

A mulher que eu não amava

Ronaldo Brito Roque - A mulher que eu nao amavaQuando eu acordei, a mulher que eu não amava já tinha levantado e se vestido. Ela perguntou se eu tinha resolvido passar o dia na cama. Era sua piada do mês: acordava antes de mim, e perguntava se eu ia passar o dia na cama. Levantei, tomei banho, e fui ler os jornais do dia anterior. Quando ela passou pela sala, perguntou, pela milésima vez, por que eu estava lendo os jornais do dia anterior. Até hoje ela não entendeu que o jornaleiro só passa depois que eu saio para o trabalho. Na sequencia, me pediu para pagar a conta da TV a cabo. Eu perguntei se ela não tinha deixado em débito automático. Ela alegou que não tem paciência para fazer o cadastro no saite. Desde que um cara do telemarketing a convenceu a instalar a TV a cabo, ela vem tentando jogar essa conta para cima de mim. Mais uma vez eu disse: “Claro, amor, pode deixar”, e mais uma vez esqueci de levar a fatura.

No caminho para o trabalho, fiquei me perguntando por que me casei com a mulher que eu não amava. Sempre que volto a essa pergunta, lembro basicamente de duas cenas, e as duas não têm nada a ver com ela. Uma é minha mãe no hospital, dias antes de morrer de linfoma. Ela me chamou, nervosa, como se precisasse dizer algo urgente; me puxou para perto dela, e falou: “Meu filho, eu perguntei ao médico. Você não tem que se preocupar, essa doença não é genética.” Só anos mais tarde descobri que ela havia mentido. Mas continuo achando aquela fala de uma beleza extraordinária. Acho que foi o único momento original na vida da minha mãe.

A outra cena é minha primeira namorada ao lado de um sujeito, numa mesa do Supersteak. Entrei por acaso, e vi os dois juntos, sem que eles me notassem. Ela estava passando a mão na nuca dele, com um olhar serenamente fascinado, como deve ser o olhar de uma mulher apaixonada. Não consigo lembrar de uma única vez que ela tenha me olhado daquele jeito. Nenhuma mulher, que eu saiba, jamais me olhou daquele jeito. E, como sempre, cheguei ao trabalho antes de encontrar minha resposta.

Tudo estava indo bem na empresa. Ensinei uma estagiária a copiar os balanços do mês anterior, e mudar apenas alguns números. Ela já consegue fazer isso sem me consultar, a garota tem futuro. Um pouco antes do almoço, quando acessei aquele saite pornô, lembrei que havia uns quatro dias que eu não transava. A mulher que eu não amava já nem se preocupava em inventar boas desculpas; alegava mero cansaço ou dor de cabeça. Liguei para a Josilene, perguntei se ela queria almoçar naquele restaurante perto da rua Henfil Soares. Ela sabe o que essa pergunta significa, e disse que não ia dar, porque tinha que aproveitar a hora do almoço para passar no banco. Eu falei, no limiar entre a brincadeira e a seriedade, que, se ela não topasse, eu não ia ajudá-la a fazer a auditoria trimestral que a nova presidência está exigindo. Ela tossiu, riu de nervosa, e disse que de repente ganharíamos tempo se almoçássemos já no próprio motel.

Quando eu passava na Henfil Soares, entrei no motel mais barato mesmo. Já estou como minha mulher, nem me preocupo em inventar boas desculpas. A Josilene, como sempre, arrasou. Quando estamos juntos, fico pensando que ela ganharia uma nota se fosse garota de programa. A cama é sem dúvida seu território natural. Mas a vida é injusta, e ela ainda vai passar muitos anos acreditando que pode ser contadora. Depois nós pedimos o almoço, e pela primeira vez reparei que ela come de forma desengonçada, mastiga de boca aberta, pega o frango com as mãos. Fiquei pensando que a mulher que eu não amava podia não ser boa de cama, mas pelo menos era mais delicada na hora de comer.

Deixei a Josilene no banco, e voltei ao escritório me sentindo ótimo. Sei lá, sempre me sinto feliz depois do sexo. Pensei até em ligar para a mulher que eu não amava, e dizer alguma coisa romântica. Mas achei que seria injustiça com a Josilene; afinal, ela é que tinha me dado aquela alegria toda. Mesmo assim decidi ligar, e falei que eu tinha visto uns merlots na promoção, e a gente podia tomar com uma pitsa ou coisa assim. Ela perguntou: “Pitsa de novo, amor?” Depois falou: “E aquela conta? Esqueceu de novo, amor?”.

Por fim nem levei o merlot, tomei uma cerveja mesmo. A mulher que eu não amava não comeu nada. Disse que estava de regime. Quando fomos nos deitar, notei que ela tinha vestido a camisola transparente, e aquilo me preocupou. Pensei que eu já tinha me divertido bastante durante a tarde, e talvez não tivesse mais energia para ela. Mas depois fiquei passando a mão na camisola, e senti que uma ereção começou a se insinuar. Fiquei muito feliz por ter uma segunda ereção no mesmo dia, e comecei a beijar a mulher que eu não amava tão calorosamente que ela pode até ter pensado que eu a amava. Fiz aquela brincadeira com a calcinha que até hoje eu não sei se ela detesta ou apenas finge detestar. E logo fizemos um amor candente, arrojado. Ela parecia perplexa com minha súbita excitação, tanto quanto eu. Pensei que depois ela ia reclamar do meu suor, e pedir que eu tomasse banho. Mas ela apenas ficou deitada no meu peito, me fazendo carinho, e por um instante me senti um pouco mal por não amá-la. Felizmente eu estava cansado demais para ficar pensando no assunto.

No dia seguinte, quando acordei, ela já estava vestida. “Vai passar o dia na cama?”, ela perguntou. Tentei sorrir. Mais tarde fui para a sala e aguardei que ela fizesse a pergunta sobre os jornais. Ela a fez, e não esqueceu de mencionar a conta da TV a cabo. Entrei no carro com a pergunta estalando na cabeça, quase falei em voz alta: “Afinal, por que me casei com a mulher que eu não amava?” Depois liguei o rádio, e segui para o trabalho. Acho que estou começando a entender que, no fundo, eu nunca quis saber.

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Ronaldo Brito Roque é tradutor e escritor. Nasceu em Minas Gerais, em 1978, e mora há oito anos no Rio de Janeiro. O seu primeiro livro, Romance Barato (editora Multifoco), teve edição esgotada em menos de um ano. O seu segundo livro, Meias Palavras, encontra-se à venda pelo saite da Livraria Torre.