Arquivo 2009-2013, Estórias de Alcova

Como a terra merece as flores

Garota de Programa

Todos os seus amigos já tinham ido a casas de massagem. Pablo tinha falado sobre um lugar no centro onde a hora era apenas cem reais. Ruslan havia lhe indicado um saite com garotas um pouco mais caras, porém muito bonitas. Saulo hesitava porque sua namorada era até gostosa. Tinha seios pequenos, mas graciosos; tinha um corpinho proporcional, pernas bem torneadas. O problema é que era muito apagada na cama. Apenas se deitava e esperava que ele fizesse o trabalho. Não tinha iniciativa, não falava nada, parecia até mesmo não gostar de sexo. Saulo estava percebendo que a estratégia dela era inventar mil programas para o fim de semana, passar na casa de vários amigos, ir a festas intermináveis, estúpidas exposições de arte, e assim cansar o namorado e não ter que transar. Em contrapartida, ele descobria que gostava realmente de sexo, não era mero capricho de adolescente. Queria penetrar uma mulher, abraçá-la com força, morder seus ombros e pescoço, depois dormir aquele sono redentor que só existe após o orgasmo. O trabalho, as reclamações dos clientes, os horários e prazos seriam esquecidos por algumas horas. O próprio mundo desapareceria por algumas horas, e logo ele acordaria disposto, como se estivesse começando algo novo, como se estivesse em dia com seu destino. Mas Flávia Cristina estava lhe negando esse prazer. Inventava cada vez mais desculpas para não transar. Quando não era a menstruação, eram festas e insuportáveis reuniões de família. Saulo sentiu que precisava dar um basta. Olhou mais uma vez o saite — estava numa lanhouse — tomou coragem, e escreveu o email que tinha planejado:

“Se hoje você não fizer amor comigo, vou chamar uma garota de programa.”

Enviou a mensagem com uma sensação obscura, misto de orgulho e receio. Orgulho pela iniciativa, e receio da resposta de Flávia, que ele não conseguia prever. E se ela não gostasse da provocação? E se quisesse terminar? “Que se dane!” pensou, irritado. “De que me adianta uma namorada, se não posso levá-la para a cama? Não sou nenhum padre, quero sexo, e Flávia vai ter que lidar com isso! Afinal, para quê estou trabalhando?!”

Ele mesmo se surpreendeu com essa pergunta, pois não tinha imaginado que trabalhava para ter direito a sexo. Mas era isso mesmo! Trabalhava para ter direito a algum prazer, e que prazer seria melhor que a nudez quente e úmida de uma mulher bonita? Estava confuso, mas excitado, confiante, quase feliz. Sim, era um homem! Tinha testosterona correndo em suas veias, e precisava admitir aquilo. De volta ao trabalho, ainda curtia certa empolgação quando recebeu uma mensagem no celular:

“Amor, precisamos conversar. Passo na sua casa às oito.”

Seu humor oscilou rapidamente. “Está acabado”, pensou, derrotado. “Ela vai terminar. Eu sabia: fui longe demais.” Passou alguns minutos confuso e envergonhado. Não conseguiu trabalhar, passava as mãos na cabeça, queria acender um cigarro, embora nunca tivesse fumado. “Meu Deus, exagerei! Devia ter tocado no assunto de outra maneira.”

Depois do trabalho, voltou à lanhouse e ficou olhando os saites de garotas de programa. Muitas não mostravam o rosto, apenas exibiam os corpos em poses de revista masculina. Aquelas fotos muitas vezes tinham disparado suas fantasias e lhe despertado ereções bastante convictas. Mas agora pareciam exageradas, extravagantes, irreais. Reparou que o cabelo de uma garota parecia peruca. O silicone de outra estava visivelmente mal colocado, deixando veias ressaltadas e mamilos esticados. Uma terceira chegava mesmo a ter uma cicatriz de cesariana, o que deixou Saulo estranhamente chocado. Pela primeira vez pensou que aquelas jovens talvez já tivessem filhos, talvez fizessem programa apenas para sustentá-los, e não porque fossem mulheres ousadas e fissuradas em sexo. Essas conclusões eram ainda mais incômodas quando ele imaginava Flávia Cristina terminando o namoro. Ela diria alguma coisa como “pensei que você fosse outro tipo de homem”, depois se despediria, convicta, batendo a porta do seu quarto-e-sala e sumindo da sua vida para sempre. A previsão se agravava quando sua mãe aparecia na história, perguntando por Flávia Cristina, frisando que ela era modesta, simpática, educada, que ele não encontraria facilmente outra garota como aquela.

Mas tudo estava acabado! Era melhor se acostumar logo à situação. Fechou os olhos, repetiu cinco vezes que tudo estava acabado, depois voltou a olhar o saite com um rancor profundo, que ele confundia com determinação. Encontrou uma garota — Larissa — que mostrava o rosto nas fotos. Era branca, tinha cabelos lisos que não pareciam artificiais; seios perfeitos, pele sem manchas de sol — provavelmente não era carioca. Verificou que o preço era acessível. Não seria nenhum desfalque no seu orçamento. Calculou que às nove Flávia Cristina já teria feito um discurso e dado seu adeus. Às nove e cinco ele ligaria para a garota, nove e meia estaria no hotel. Receberia Larissa às quinze para as dez, os dois conversariam sobre coisas banais, ela perguntaria sua profissão, ele perguntaria há quanto tempo ela fazia programa. Às dez e quarenta metade das suas fantasias estariam realizadas, e às onze ele estaria relaxado, feliz, esperando a garota sair do banheiro para tomar uma ducha. Era uma ótima previsão para a noite. Acreditou que umas quatro aventuras como essa lhe bastariam para esquecer a namorada e sua sexualidade banal.

Às oito estava preparado para a prova. Estranhou que Flávia chegasse de salto e tão bem arrumada: brilho nos lábios, sombra, delineador, um vestido de noite que ele sabia não ser usado em qualquer ocasião. De repente se sentiu oprimido por um ciúme obstinado e confuso. Especulou que ela também encontraria alguém depois de terminar, talvez já estivesse interessada em outro, e ansiasse pela oportunidade de culpar o namorado pelo fim do relacionamento. Saulo se sentiu manipulado, traído de uma forma tão complexa que não conseguiria planejar uma vingança à altura. E sentia sua derrota ainda maior quando reparava que Flávia estava bonita, confiante, estranhamente distante. Saulo se convenceu de que era na verdade a mera vítima de uma mulher calculista e dissimulada.

Ela começou a falar com frieza. Não parecia nervosa.

— Sabe, Saulo… Quando eu te conheci, achei que estava conhecendo outro tipo de homem… — Ele ouvia sem muita atenção. Estava convencido de que ela ia terminar.

— Você era sensível, gostava de arte, parecia entender a alma feminina. Parecia valorizar o amor, o romantismo… — Enquanto falava, ela movia a cabeça e fazia balançar um pouco os cabelos. Seu olhar estava distante, parecia uma atriz, estava mais linda que nunca. Saulo reparou que ela usava um sutiã preto, provavelmente novo. Aquilo o excitava levemente, mas também o torturava, porque ele não parava de pensar que ela ia encontrar alguém quando saísse do apartamento. Não era normal que se arrumasse daquele jeito simplesmente para terminar. Lógico que ia ver outro!

Flávia continuava a falar, lembrando que o sexo não podia ficar acima da confiança, do amor, dos planos compartilhados. Saulo só reparava no suave movimento dos seus lábios, nos olhos cuidadosamente delineados, nos seios contornados e pressionados pelo rigor do sutiã preto. Começou a pensar que sua namorada não era assim tão inocente: quando queria, sabia provocar. O problema era que não queria com muita frequência. Mas era inaceitável que aqueles seios macios terminassem a noite nas mãos de outro. Subitamente uma idéia confusa pareceu dar alívio àquela pletora de sensações contraditórias. Faria amor com Flávia pela última vez. Ou pelo menos tentaria. Tomaria suas mãos, pediria um perdão caudaloso, convincente, e a levaria para o quarto antes que ela o contrariasse. Afinal, ele ainda era oficialmente seu namorado. Depois do sexo estaria mais calmo para terminar, deixaria que ela saísse porta à fora, deitado em sua cama, enrolado na maciez compreensiva do seu edredom. Dormiria um sono pesado, sem sonhos, e só voltaria a pensar em garotas de programa daí uma semana, quiçá um mês. A idéia lhe agradava e, antes mesmo de formular a primeira frase, já tinha tocado Flávia nos cabelos, já estava confessando que ela era linda, na verdade a mulher mais linda que ele já tinha namorado. Dizia isso com os olhos baixos, como se admitisse uma fraqueza dele, não uma qualidade dela. E logo recordou os seios, e quis dizer também alguma coisa sobre eles, mas, não sabendo como se expressar, apenas os tocou, com espanto, com estranheza, com certo desespero até. Suas mãos já lhe tiravam o vestido quando ela exigiu alguma promessa, que ele fez, sem entender muito bem, apenas assentindo com a cabeça — Sim amor, claro que sim, eu prometo, eu juro! — e redescobrindo a magia candente daqueles seios macios, que pareciam bem mais imponentes por trás do negrume do sutiã. Flávia Cristina deteve-o algumas vezes, por vaidade e prazer, enquanto internamente se deliciava com a realização de seus planos. Lá estava ele novamente, seu namorado, implorando por sua nudez, prometendo e concordando com o que ela quisesse, só para ter alguns minutos dentro do seu corpo quente e úmido de fêmea. Ela se considerava superior em estratégia, e se congratulava por não ter respondido o email dele com as primeiras palavras que lhe vieram à cabeça. Depois consentiu em ir para o quarto, despiu-se de uma maneira programada, teatral, prendendo a barriga e exibindo uma lingerie ansiosa, que esperara anos no fundo de uma gaveta. Saulo estava extasiado, certas coisas com que ele sempre tinha sonhado começavam a acontecer, e isso dava à realidade uma atmosfera cinematográfica, meio fantástica, mas ao mesmo tempo mais emocionante, mais colorida, mais real. Quando Flávia cavalgou sobre ele e o sufocou de leve entre os seios, ele quis desesperadamente dizer alguma coisa que não sabia o que era, só sabia que era verdadeiro, intenso e definitivo. Assustou-se ao ouvir a própria voz gritando — eu te amo, Flávia Cristina! — e o susto logo se converteu no imenso prazer que fluiu pelo seu corpo e o sossegou e o refrescou como uma chuva torrencial de dezembro.

Flávia o ouviu, satisfeita, depois sentiu certa comichão na altura da cintura e ficou se perguntando se aquilo era o tal do orgasmo. Mas a sensação se dissipou, e ela apenas se deitou, relaxada, sobre o namorado, seu corpo oscilando entre o cansaço e a satisfação.

Quando recuperou o ânimo, foi correndo ao banheiro, porque detestava ficar com sêmen entre as pernas. Estacou diante do espelho, levemente chocada, lembrando que estava gorda, e notando que o suor tinha espraiado a tinta do delineador. Mas, apesar dos inconvenientes, teve a sensação de estar ligeiramente mais bonita; lamentou que não fosse passar numa festa ou danceteria onde todos pudessem testemunhar essa mudança. Voltou ao quarto e tentou não rir ao ver Saulo com cara de bobo, olhando vagamente para o teto. Não adivinhou que ele se perguntava se da próxima vez ela o deixaria filmar. Deitou ao lado dele, acariciou de leve seu peito, seu rosto, e disse baixinho o que tinha pensando antes de sair de casa.

— Então, amor? Você vai me dar os duzentos reais?

— O quê?! — Saulo não acreditou. Achou que outra mulher tinha tomado o corpo dela.

— Não foi o que combinamos? Você não ouviu o que eu disse na sala?

Ele ficou ainda mais confuso e assustado. De fato não tinha ouvido bem o que ela dissera antes de irem para a cama. Tinha achado que era algo banal, mais um sermão sobre a importância do amor ou coisa do tipo.

— Amor, então foi isso que você falou!? Não estou nem acreditando, você falou que ia me cobrar!?

Flávia abriu uma risada gostosa, triunfante. Saulo também começou a rir, primeiro apreensivo, indeciso, depois relaxado e cúmplice. Abraçou a namorada, mais feliz que nunca. Sentia estar diante de outra mulher, mais ousada, mais inteligente e divertida.

— Você não tinha ouvido nada, hem, amor!

— Você me pegou, linda. Naquela hora eu não estava ouvindo nada…

Os dois se abraçavam e riam, agora por dentro. Riam por sentir que mereciam aquele momento. Mereciam um ao outro, por motivo nenhum e por todos os motivos do mundo, como a terra merece as flores, e as flores merecem a luz e o calor do sol. Flávia ria com um prazer especial, porque sentia que aquela conquista era sua. Ela planejara e executara aquela noite com a precisão de um gênio do crime. De repente sentiu um calor suave e pulsante que aquecia seu peito e subia até as faces, talvez a fazendo corar. Surpresa e encantada, ficou se perguntando se aquilo era afinal o tal do orgasmo. Mas logo concluiu que não. Não era orgasmo. Era simplesmente felicidade.

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Ronaldo Brito Roque é tradutor e escritor. Nasceu em Minas Gerais, em 1978, e mora há oito anos no Rio de Janeiro. O seu primeiro livro, Romance Barato (editora Multifoco), teve edição esgotada em menos de um ano. O seu segundo livro, Meias Palavras, encontra-se à venda pelo saite da Livraria Torre.