
Na internet ninguém tem filhos, nem estrias, nem cicatriz de cesariana. Eu também era apenas um nome bonitinho — Iceman — que sugeria vagamente meu desprezo pelo mundo, mas não delatava minha barriguinha, minhas pernas magras e meus comprimidos contra calvície. Quando nos encontramos é claro que isso veio à tona, e ela pensou que poderia acabar tudo, pegando meu telefone, e prometendo ligar qualquer dia. Mas eu era advogado, tinha um Audi, e pagaria sem dificuldade uma pousada em Cabo Frio ou Búzios. Ela costumava sair com jovens bonitos, que esbanjavam cabelo e bíceps, mas eles viviam de pequenas pontas em novelas e eventos, tinham no máximo um Palio, e não persistiam quando descobriam o garoto. Por isso ela teve uma pequena vertigem quando insisti em pagar a conta. Estava ao mesmo tempo revendo seus conceitos de homem ideal, e se perguntando qual seria a melhor hora para falar em Daniel — se antes ou depois da primeira foda. Decidiu que depois seria melhor, assim já teria me mostrado aquelas habilidades especiais que ela não aprendera na escola, nem com os pais, e justamente por isso considerava seu poder mais autêntico e confiável. Foi, aliás, lembrando desse poder que ela encontrou segurança para já falar em como gostava de Cabo Frio e de seu mar calmo e esverdeado. Eu, que nunca dei a mínima para praia, afirmei terminantemente que amava Cabo Frio e o tal mar esverdeado. Eu amaria o mar, a areia e até as palmeiras de qualquer lugar, se a mulher que me acompanhasse tivesse a delicadeza de me dar, em troca da viagem, o merecido deleite sexual. Ela era jovem e muito bonita — a cicatriz de cesariana era insuspeitável naquele momento — e me pareceu que a troca valeria a pena.
E, de fato, valeu. Uma pequena cicatriz não faz diferença, a não ser pela interrogação que suscita. Ela me falou de Daniel, da pertinácia de sua bronquite e do seu desprezo inabalável por tudo que não estivesse diretamente ligado a jogos de computador. Falou das intermináveis horas extras que ela fazia para pagar o cursinho de inglês, enquanto ele matava aula para frequentar uma lanhouse. Para arrematar, acrescentou que o estado precisava buscar mecanismos mais eficientes de controlar os jovens, antes que eles se tornassem marginais, drogados e pais solteiros. Como toda brasileira, ela achava que qualquer problema devia ser de alguma forma resolvido pelo estado, cabendo aos cidadãos apenas o dever imprescindível de ir à praia e ver televisão.
Não foi difícil perceber que aquele menino era a chave para dominá-la. Se eu me aproximasse do garoto, se o fizesse repetir algumas frases em inglês, se conseguisse convencê-lo da utilidade de um maldito diploma, ela se apegaria tanto a mim, desejaria tanto a minha permanência na sua vida, que talvez chegasse até mesmo a sentir algum prazer quando estivesse me chupando. Foi por isso que decidi comprar o playstation no Natal; foi por isso que passei a mencionar incessantemente que os fabricantes de games eram formados numa faculdade chamada “Ciência da computação”; e foi ainda por isso que paguei a conta do oculista e os óculos ridículos que davam contorno definitivo àquela cara de néscio.
Foi assim que vivi o delicioso prazer de ter razão. Valéria me amou intensamente, suportou bravamente meus gritos e momentos de cólera, me chupou algumas vezes na sala, enquanto o moleque estava trancado no quarto, cantando alguma gordinha pelo MSN. Pensei várias vezes em abandoná-la, mas descobri que de vez em quando eu também gostava da sua companhia. Ela era a única namorada de quem eu não precisava esconder as garrafas de Red Label. Ela foi a única que ficou comigo depois que os médicos me explicaram o que era pancreatite aguda.
O menino é que nunca me engoliu. Depois que se formou, arrumou um emprego numa multinacional, e disse que não queria mais ver as nossas caras. Explicou que gostava muito da mãe, só que não suportava sua condescendência com meu autoritarismo. Mas de vez em quando ele escreve pedindo algum dinheiro, e Valéria se lembra de como ser carinhosa e usar uma lingerie. Acho que somos uma família.
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