
Olá! 🙂 Ela gostava de ficar sentada à beira do lago, naquele banco de madeira que guardava segredos, na sombra fresca do castanheiro, enquanto o seu fiel companheiro farejava as tocas dos coelhos. Todas as tardes, impreterivelmente, pegava no velho leitor de CDS, e embelezava a paisagem natural com a calma térrea com que se infiltrava no cenário verde.
Um dia, ele apareceu e ocupou o lado esquerdo do seu banco. Não disse nada, apenas sorriu e ela, na ternura da sua timidez, também o fez. Ficaram assim, perdidos no tempo e na doçura do silêncio partilhado, sentindo a brisa que coçava as pontas das orelhas, o coaxar das rãs e os risos felizes das crianças que brincavam longe. Ela foi embora primeiro. Jogou um leve adeus no ar e caminhou rápido, segurando com firmeza a trela do velho cão. Ele ficou mais meio segundo – o tempo suficiente para que o perfume dela se evaporasse na humidade dos cheiros de verão.
No outro dia, a cena repetiu: ela, sentada de perna cruzada, sentiu-o chegar e o seu coração pulou as cercas do amor. Estás tola, pensou. Nem o conheces.
– Olá – disse o homem.
– Olá – respondeu a rapariga.
Os cumprimentos foram selados com a tranquilidade que as suas presenças proporcionavam. Dia após dia, encontro após encontro, os olás foram trocados por pequenos toques de mãos, por um beijo no ombro, pelo enrolar de uma madeixa de cabelo no dedo. Falavam sobre pouco: a música favorita, o livro de cabeceira, o filme das suas vidas. E depois, novamente o silêncio, preenchido pelo arrulhar dos pombos, pelas respirações apaixonadas e pelos toc-toc dos corações que iam e viam, como meninos, em baloiços altos. Ele era sempre o último a chegar e ela sentia-o já ao longe: o cheiro a sabonete, o pisar das folhas secas, o som irresistível que as suas pernas faziam e que ela não ouvia em mais ninguém. Ela era sempre a primeira a ir embora e ele ficava apenas para vê-la desaparecer na esquina: parecia que caminhava de cor, que ela e o cão eram um só, que colocava os pés nos mesmos sítios que ontem, que fazia as curvas com o mesmo gingar do corpo – isso fascinava-o; adorava vê-la andar com tanta segurança.
– Olá. Já nos conhecemos há algumas semanas mas ainda não sei o teu nome.
Ela corou. Ele guardou na alma a visão daquele rosto de anjo enrubescido.
– Sou o Rui.
– Sou a Maria.
Ele pegou na mão dela e beijou as unhas delicadamente pintadas de branco.
– Adorava ver os teus olhos. Hoje nem está sol.
A rapariga petrificou. Tirou a mão da dele e preparou-se para ir embora.
– Espera. O que foi que eu disse?
Ela seguiu em frente, sem hesitar, e virou a esquina. Ele esperou a noite cair e ali ficou, na esperança de que ela voltasse, nem que fosse por cinco minutos. Na manhã seguinte, ela apareceu – ela e o bonacheirão preto – e sentou-se no seu banco; no banco que até ao dia anterior partilhara com a única pessoa que valera realmente a pena.
– Vieste – disse-lhe ele.
Ela assustou-se.
– Como sabias que vinha?
– Fiquei a noite toda aqui.
Ela engoliu o peso daquela revelação.
– Se estás tão interessado por que não foste atrás de mim?
Ele aproximou-se dela e, como quem pega na mais delicada seda, encaminhou a mão da rapariga até às suas pernas. Ela abriu a boca ao sentir a roda metálica da cadeira. Ele sorriu mas ela não pôde ver.
– Posso ver os teus olhos agora?
Os óculos de sol foram tirados e ele acarinhou com a vista aqueles olhos que a vida cegara. Puxou-a para si e beijou, um por um, a escuridão das suas pálpebras fechadas. Uma lágrima rolou pela bochecha da rapariga e caiu, grossa e quente, na perna esquerda do homem. Ele não a sentiu mas foi como se ali tivesse nascido a razão para a sua cura. Ela procurou pelas suas pernas e, com os lábios molhados de amor, beijou-as devotamente. Por fim, as bocas conheceram-se e as línguas entrelaçaram-se para sempre.
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